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Licor de Cacau - 2ª Temporada - #5 Banheiro com banheira

agosto 01, 2018Cacau dos Santos

Foto: Unsplash.

(1) Sobre fundo preto surgem, em letras brancas, sucessivamente, as seguintes frases:

AVISO: ...AAAAAH, vocês já sabem que aqui só tem zoeira!

(2) As frases desaparecem em fade e surge a primeira cena


MÚSICA DE CENA:

22 de fevereiro de 2018
Lapa, Rio de Janeiro
9h08 am

- Bom, essa  é a sala. Eu sei que tem esse buraco aí no meio do chão mas dá pra esconder com um tapete. Era assim que eu fazia quando morava aqui.
- Uuuh... - murmuro enquanto observo.

- E aqui é a cozinha. Tá faltando esses 5 pisos na parede mas se colar um papel A4 nem vai parecer que é papel. Era assim que eu fazia quando morava aqui.
- Uuuh... - murmuro de novo enquanto observo.

- O quarto, tem essa infiltração mas é só jogar argamassa que fica top. Se quiser te indico um ótimo pedreiro. Ou pode disfarçar com uma cortina ou uns quadros grandes. Era assim que eu fazia quando morava aqui.
- ... - tô mais muda que o pessoal no filme 'Um Lugar Silencioso'.

Mano do céu, que apartamento mais fubá é esse que vim visitar! Antes tivesse ficado na minha atual casa, dormindo mais um cadiquinho ao invés de acordar cedo e vir até aqui e dar de cara com essa desgrama! Eu deveria ter deduzido que não seria algo bom só pela oferta barata do anúncio... mas vim assim mesmo pra desencargo de consciência. E também porque eu meio que tô puta com o Pedro já que nossa conversa de ontem de manhã não saiu como o esperado.

FUMACINHA DO FLASHBACK

- Pê... vamos morar juntos.
- É UKÊ?!
- É Pedro, vamos morar juntos! Vamos alugar um apê aqui mesmo no 336 e rachar as despesas. Com isso eu me livro do problema de ter de conseguir um novo lugar as pressas e você sai do apartamento do seu primo. É perfeito! É o universo nos dizendo que devemos fazer isso! Essa é uma ótima oportunidade para nós dois! O que acha?
- Camila... é... NÃO!
- COMO ASSIM NÃO?
- Não, ora! Não é não!
- Mas por quê não?
- Porque ainda é muito cedo pra isso, estamos namorando não tem nem 2 meses!
- E daí? A gente já se conhece e já se pega pra quase 2 anos!
- Mas se pegar é uma coisa, iniciar um relacionamento é outra e ir morar juntos requer mais tempo do que o tempo que tivemos até agora.
- Então você não quer ficar comigo?
- Claro que eu quero mas não assim e não nessas condições, calma aí!
- Pedro...

FIM DA FUMACINHA DO FLASHBACK


OLHO PARA A CÂMERA E FALO:
- ... É... foi uma merda. E preciso dizer que estamos meio que brigados desde então?

- E aqui é o banheiro, o chuveiro não tem água quente mas dá pra esquentar no fogão e tomar banho de balde. Era assim que eu fazia quando morava aqui.

AÍ TÁ BOM! JÁ CHEGA DESSE APARTAMENTO LIXO!

Me viro para o proprietário com cara de fuinha e agradeço por me mostrar tudo e digo que vou pensar na proposta e que entrarei em contato o quanto antes e saio dali fugida para nunca mais voltar!

Corro até a estação de metrô mais próxima e sigo direto para o trabalho. No meio do caminho não me aguento e começo a chorar. Para disfarçar, coloco meu óculos de sol e levanto a cabeça afim de engolir, literalmente, as lágrimas.

Não acredito que estou passando por tudo isso e que o Pedro não se comoveu com meu desespero. Ok que a maneiro como o abordei e fiz a proposta de morarmos juntos foi meio... psicótica. Mas caralho, se fosse o contrário eu iria abrir as portas da minha casa pra ele sem pensar duas vezes porque é isso o que um namorado faz pelo outro, o ajuda e o apoia nos momentos mais duros da vida. Não é só beijo e sexo e mil maravilhas. Há os perrengues também e não o estou vendo preocupado comigo, de fato. Muita sacanagem isso.

Chego na GRID e ainda tenho de aturar os forinhas venenosos de Regina:
- KKU Keridá, que cara é essa? Andou chorando, foi? Brigou com o boy lixo ou se deu conta de que o lixo é você?
- Regina sabe o cu? Então, tome nele.
- Teu catar, vadia! Você vai ver só uma coisa, eu ainda vou te tirar dessa empresa a chutes e pontapés...

Ameaça feita, como sempre, e ela me dá as costas como resposta e vai ao encontro de seu namorado.

OLHO PARA A CÂMERA E FALO:
- Que manhã bestial essa! O que mais falta me acontecer antes do horário de almoço?

E a resposta não demora muito pra vir:
- Aaah Cacau, mudaram sua mesa. Agora a Regina vai se sentar do lado do Gregório e você fica ali isolada no cantinho - avisa Gleide que está terminando de tirar minhas coisas de cima de minha mesa antiga.

É aqui que eu morro hoje!



LICOR DE CACAU
SEGUNDA TEMPORADA

MÚSICA DE ABERTURA:

EPISÓDIO 5 – Banheiro com banheira
Escrito por: Cacau dos Santos

10h33 am
Eu não deveria fazer isso pois tá errado, muito errado. Só vai me causar mais dor e frustração. Eu sei disso! Mas faço assim mesmo, é mais forte do que eu: abro aquele anúncio da casa fofa e linda em Laranjeiras, pego o número do contato da anunciante, mando um WhatsApp e marco uma visita para esse sábado, às 10h. 

Não vou ficar com a casa, não tenho $$ pra isso, mas foda-se! Preciso vê-la para amenizar a decepção que está sendo essa odisséia de conseguir um lugar novo para morar.

Não conto pra ninguém dessa visita. Não quero ser criticada e nem ouvir verdades, só quero me iludir em paz. E espero pacientemente sábado chegar.



24 de fevereiro de 2018

E eis que o sábado chegou. Um dia novo e com um ar de esperança. Me levanto às 8h, tomo banho, tomo meu café e às 9h em ponto eu saio e sigo a pé mesmo em direção a Rua Cardoso Júnior.

Subir essa rua principal da Cardoso é muito nostálgico. Quer dizer, me passa um filme na cabeça na hora! Foi ali naquela esquina que eu quase quebrei a perna ao tentar pular o muro da casa da Dona Edithe pra roubar amora. Eram as melhores amoras da rua. E foi ali naquele muro da casa do Seu Ataíde que eu vi a Dorinha, filha da Dona Martha, dando altos pegas no Cristiano, filho da Dona Dora. E a Martha namorava o Claúdio na época. Isso foi um babado forte que percorreu por todo o bairro. Cabô que hoje ela é casada com a Sylvia do 120 e o Claúdio ficou com a prima dela!

E foi nessa primeira escada da rua que eu cai e torci o pé. Tava brincando de pique-esconde com meus amigos e, afobada como sou, acabei tropeçando nesse degrau e torci o pé. Doeu pra caralho e só de lembrar já dói novamente!

Mano do céu que delícia é estar aqui sendo que nem deveria! Num posso pagar pelo aluguel dessa casa que estou indo ver (já falei isso quantas vezes, hein?). Então por que estou indo ver essa bagaça mesmo?... Aaah sim, lembrei, PARA ME TORTURAR! Só eu mesma...

É aqui, número 20. Que portãozinho mais adorável. Todo de madeira e pintado de verde. Minha cor favorita! Isso é um sinal... sinal porra nenhuma, Camila. Só toca a campainha e acaba logo com essa droga.

Campainha tocada e não leva nem 1 minuto e sou muito bem recebida por Raíza, dona da casa e pessoa responsável pelo anúncio no grupo do facebook.

- Cacau? - ela pergunta enquanto abre o portão.
- Isso. Raíza? - pergunto.
- Isso mesmo, seja bem-vinda!
- Obrigada :)

E Raíza é bem mais jovem do que o esperado. Deve ter minha idade. 

- Conseguiu chegar aqui com facilidade? - ela pergunta.
- Sim, eu já conheço tudo aqui. Morei na Cardoso durante a minha infância mas nossa casa ficava mais pra cima, ali perto da quadra.
- Sério? Em que ano foi isso?
- Início dos anos 90. E saímos daqui no final de 97.
- Nossa, quase que fomos vizinhas! Minha família se mudou pra cá em julho de 98!
- Caramba que conscidência! 
- Não é, menina!

E nos cumprimentamos com 2 beijinhos na bochecha e logo ela me leva para dentro da casa e me mostra tudo.

- Papai faleceu a pouco tempo e eu vou me mudar com meu noivo para um flat ali no Flamengo, então temos uma certa urgência em alugar essa casa. Por isso até baixei o preço do aluguel pois sabia que se fosse cobrar o que vale, não ia conseguir. Mas garanto que tudo está em ótimo estado. Meu pai era um homem muito cuidadoso com tudo, assim como mamãe. 
- Sim, estou vendo...

E sim, tudo estava em ordem. Paredes com as pinturas muito bem conservadas e sem mofo, chão de piso de madeira muito bem encerada, cozinha com todos os azulejos (que aliás eram num tom nude e com desenhos de flores, assim como o da minha antiga casa), encanamento é velho mas ao abrir as torneiras as águas não saem sujas, pelo contrário, e a varandinha é mesmo um mimo (Cake vai amar esse espaço). Os quartos são grandes e bem ventilados (tem um cujo a janela é em frente a um pé de amora!) e por fim ele - o banheiro com banheira!

- Essa banheira... - digo ficando visivelmente emocionada.
- É, eu sei, ocupa muito espaço. Mas é possível tirá-la com uma boa obra e...
- NÃO! ELA É PERFEITA! MARAVILHOSA! EU SEMPRE QUIS UMA! E ELA É ROSA! ROSA BEBÊ! ROSA BEBÊ VINTAGE!


- Você gosta?! - pergunta Raíza assustada.
-  Eu AMO! Banheiras são vida!
- Mas gente... minha mãe detestava essa banheira mas nunca teve tempo e a oportunidade de fazer uma obra para retirá-la. E meu pai nunca esquentou a cabeça então aí ela ficou.
- Porque era o destino ela ser minha... - digo me ajoelhando enquanto contemplo essa belezinha.
- Então quer ficar com o apartamento? - pergunta Raíza já animada.

Oh God, claro que quero. Óbvio que quero! É tudo perfeito! Fica em Laranjeiras, na rua onde cresci, é uma casa antiga e relativamente grande mas em ótimo estado e tem esse banheiro com essa banheira que é meu sonho de consumo... mas não ganho o suficiente para bancar tudo isso. Que dor no coração.

Mas disfarço a frustação e digo:
- Sim, quero, muito! Ele é tudo o que eu estava procurando... e preciso... - o que é verdade.
- Que bom, Camila! Não sabe como fico feliz em ouvir isso pois todo mundo que vem aqui não gosta muito do que vê e estou louca para me livrar logo dessa casa.
- Se livrar! Por que? Aqui é tão bom.
- Aaah nunca gostei de morar em casa e nunca gostei daqui e nem simpatizo muito com a Cardoso Júnior. Nada contra mas acho subúrbio demais.

Subúrbio demais?! Isso porque ela nunca se mudou para os confins de São Gonçalo, mais especificamente em Tribobó!

-  Por isso estou me mudando com meu noivo e aproveito para alugar logo essa casa. Mas que bom que você gostou! Podemos assinar a papelada então? Pra quando quer se mudar? Semana que vem?
- Bom Raíza, eu... - droga! Melhor inventar uma boa desculpa - ...eu amei tudo mas... - vamos, nada de peidar na farofa - ... eu tenho de falar com o meu noivo antes! - BOA, GAROTA! - Isso não depende só de mim, infelizmente. Você sabe, né?
- Sei, super te entendo. Até chegarmos num denominador comum, meu noivo e eu quebramos a cabeça visitando vários apartamentos em diferente lugares. Foi o uó!
- Não é, menina!
- E cadê seu noivo que não está aqui com você?
- Ele... - vamos lá, pensa numa outra boa desculpa - ... ele foi ver outro imóvel ali no Largo do Machado. Calhou de conseguir uma visita em cima da hora no mesmo horário e então eu vi pra cá e ele foi pra lá! Acredita? - BOA!
- Aí é um saco quando isso acontece!
- Num é! HAHAHAHA...

OU MAI LORDI!


- Bom, então como vai ser? - questiona Raíza.
- Bom, eu vou pra casa e vou conversar com ele mais tarde e vou explicar que, por mim, ficamos com essa casa mesmo e, se tudo der certo, como sei que vai dar porque ele me ama só faz as minhas vontades, eu ligo de novo pra você e marcamos de acertar tudo!
- Perfeito, então! Eu fico esperando você falar com o seu noivo pra gente acerta a questão do aluguel.
- Maravilhoso, Raíza!
- Maravilhoso, Camila!

Mentira (muito bem) contada, eu me despeço de Raíza da mesma forma que a cumprimentei, com 2 beijinhos da bochecha. E vou embora de coração partido. Eu sabia que isso seria assim, sabia que ia me apaixonar por essa casa e que ia sofrer por não poder ficar com ela. 

Quero chorar de raiva e de frustração. Não encontrei nada bom até agora e quando encontro, isso não pode ser meu. Que bosta, viu.

Chego em casa com o ânimo super jurubel. Me jogo com vontade em cima do sofá e logo menina Cake aparece e se joga em cima de mim também e começa a me lamber nas bochechas, como quem diz "mamãe tava com saudades". Retribuo aquele amor todo lhe dando um forte abraço e lhe dando beijinhos no topo de sua cabeça.

Tento me animar mas não consigo. 

OLHO PARA A CÂMERA E FALO:
- Que droga de vida, viu. O que mais falta acontecer para completar esse meu dia tão frustrante?

E eis que meu celular toca. Penso em não atender mas algo dentro de mim diz para não ignorar essa chamada. O pego e vejo que é uma ligação de Fabricia. Atendo.

- Alô? - pergunto com uma voz meio lá e meio de sono.
- Cacau, Fabricia. Tá em casa? - pergunta ela aflita.
- Tô sim. Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu. A avó da Mallu acaba de morrer e ela está arrasada. Tem como você vir pra cá agora?

...puta que pariu, a avó da Mallu... ela estava com câncer... preciso ir até lá.

- Chego aí em meia hora - aviso.

Sem pensar 2 vezes eu pego meu casaco, pego minha bolsa, pego a Cake e desço as escadas do prédio enquanto vou pedindo um Uber e, dito e feito, em meia hora eu já estou na casa de Mallu.

Ela está um caco de gente. A avó era uma segunda mãe pra ela. E morreu de uma maneira devastadura: cancêr de cólon e reto.

Câncer, sempre você seu maldito! 

- Eu sabia que isso acontecer mas... mas eu... - explica Mallu enquanto é abraçada por mim.
- Mas você não estava preparada - completo a frase.
- Isso mesmo...
- A gente nunca está preparada para uma coisa assim, mesmo quando achamos que estamos. Mesmo sabendo dos fatos. Quando acontece a gente só sofre. Então sofra, Mallu. Chora, põe tudo pra fora. Desabafa. Desmorona. Se permita sofrer. É o melhor que você pode fazer por você nesse momento.

E Mallu chora. Chora tudo o que tem vontade de chorar e eu só consigo abraçá-la bem forte. Se tem alguém que entende o que ela está sentindo, esse alguém sou eu.


MÚSICA DE CENA:

Mando WhatsApp para Pedro e Chouri e aviso do falecimento da avô de Mallu e que o enterro será nesse domingo, às 14h, no Cemitério São Francisco de Paula.

E às 14h lá estamos todos, apoiando nossa amiga nesse momento tão difícil. 

O enterro ocorre de maneira discreta e silenciosa.

Após isso vamos para a casa dos pais de Mallu onde damos mais apoio e conforto aos familiares. E quando termina o dia, me despeço de todos e volto para casa, na companhia de Pedro.

Ao entrar no meu apartamento quem desaba sou eu. Ver aquilo tudo me lembrou de quando perdi minha mãe... de quando tive de reconhecer o corpo... de quando a enterrei... é um duro golpe. Começo a chorar convulsivamente e Pedro me agarra e me abraça bem forte. E ficamos naquele abraço a noite toda. Só quem já passou por isso sabe o quanto é doloroso enterrar uma mãe.



3 de março de 2018
Casa da avó da Mallu, Andaraí
1h13 pm

1 semana depois do falecimento de sua avó, Mallu tomou coragem e foi até a sua casa para, enfim, arrumar suas coisas e ver o que vai doar e o que vai levar consigo. Mas como não conseguia fazer isso sozinha, pediu a minha ajuda e a de Fabricia e Johnny e cá estamos nós, entre fotos, roupas, buzigangas e diversas recordações.

- Vovó sempre foi muito vaidosa - conta Mallu enquanto segura uma caixinha de bijuterias - olhem essas brincos e anéis. Não saia na rua sem um adorno. Até pra ir na esquina comprar pão, se produzia todinha. Era o terror do bairro! Com certeza vou ficar com isso.

E seus olhos já começam a encher de lágrimas mas Fabricia vai e lhe dá um forte abraço por trás.

- Amor nada de tristeza, sua avó não ia gostar de te ver assim.
- Tem razão, tem toda razão. Nada de tristeza! - concorda enxugando suas lágrimas - Vamos lá, vamos continuar com a arrumação. Aliás mais uma vez queria agradecer a vocês por me ajudarem com tudo isso.
- Sempre as ordens, Mallu. Pode contar com a gente sempre - digo lhe lançando um sorriso doce e meigo.
- Mallu, o quê que eu faço com essa sacola de roupas? - pergunta Johnny segurando um grande saco preto.
- Leva lá para o carro, por favor. Aliás Johnny, me faz um favor? Depois vai lá no quarto da minha avó e tira aquele colchão de cima da cama. Vou colocá-lo lá no quintal pra tirar um pouco o cheiro de mofo e depois vou pedir para o pessoal do abrigo vir pegar.
- Beleza, deixa comigo!

E assim começamos a arrumação. Eu fico encarregada de esvaziar os armários da cozinha e separar pratos, talheres e tudo mais. Algumas dessas peças a Mallu quer dar para a vizinha de sua avó, outras coisas vai levar para a sua mãe.

Quando abro a primeira gaveta, me deparo com uma louça branca com pequenos desenhos de pássaros feitos a mão. Tudo muito delicado e muito bonito. Dava pra ver que ela gostava desses pequenos mimos. Mamãe ia surtar vendo esses pratos. Ia querer na hora, adorava essas coisas também!

Isso me lembrou uma vez que fomos almoçar na casa da mãe de uma das namoradas do meu tio Aristeu, irmão do meu pai, e ela ficou louca com os pratos da casa da mulher. Era uma porcelana chinesa, bom chinesa Made in Uruguaiana mas era tudo muito bonito. Mamãe ficou vidrada no raio das peças. Tanto que, quando chegamos em casa, ela me tira um dos pratos de dentro de sua bolsa. Claro tive de falar:
- MÃE! QUE PORRA É ESSA? VOCÊ ROUBOU O PRATO DA MULHER!
- Roubei não, peguei emprestado pra sempre.
- Porra mãe!
- Olha a boca, garota. Coisa feia falar palavrão.
- Coisa feia é roubar, mãe!
- NÃO ROUBEI NADA! Ela tem um monte igual, não vai sentir falta desse aqui!
- Bastava comprar 1 igual, mãe!
- E quem disse que não vou comprar? Claro que vou. Vou comprar e vou ficar com esse também.
- Porra mãe...
- Olha a boca, garota. Coisa feia falar palavrão.

E logo volto da minha lembrança. É, minha mãe era louca... Saudades dela :´)

- Cacau, tá tudo bem, aí? - pergunta Fabricia, entrando na cozinha.
- Tá sim, tudo certo.
- Cara, isso é muito louco. Perder alguém dessa forma e ter de empacotar toda a sua vida e decidir o que levar e o que dar... não sei se algum dia eu vou ter essa força que você e a Mallu tiveram?
- Acredite, é em momentos assim que você extrai a força de dentro do seu ser e se surpreende com o que é capaz de fazer e de suportar. Não é fácil, vai doer, vai te enlouquecer! Mas você vai conseguir.
- Você é maravilhosa, sabia? - diz emocionada e já chorando.
- Obrigada, amiga.

E nos damos um forte abraço que me deixa toda arrepiada. Realmente depois que perdi a minha mãe eu descobri dentro de mim uma força que não sabia que tinha. Ou essa força surgiu após ela partir. Só sei que hoje já não tenho medo de mais nada, ou quase nada.

De repente escutamos Johnny falar extremamente alto, quase que berrando:
- SANTA MARIA MÃE DE DEUS ROGAI POR NÓS PECADORES!
- Aí Meu Deus, o Johnny!

E eu, Fabricia e Mallu saimos correndo, com o coração na mão, para ver o que houve? Vamos até o quarto da avó de Mallu e o encontramos em pé, em frente a cama da velha.

- Johnny, o que foi?! - pergunto aflita.
- Garoto, por que você gritou daquele jeito?! - questiona Fabricia.
- Meninas olhem isso! OLHEM ISSO! OLHEM SÓ IÇÚ! DINHEIRO!

HEIN?! MAS UKÊ?!!!

E quando todas nos viramos para ver a cena, ficamos incredulas por alguns segundos. Johnny havia acabado de encontrar bolinhos e + bolinhos de notas de 100 Reais debaixo do colção da cama da avó de Mallu! E tipo, era muito, tipo, muito dinheiro mesmo, cara!



- Me amarrota que eu tô passada! - fala Fabricia levando as mão ao rosto.



- Gente, mas... o quê é tudo isso?! - pergunta Mallu abasbaquada.



- Isso é grana, boneca. Grana das boas! - afirma Johhny.



- Malluuuuuu... pasma fiquei! - digo com a mão na bochecha - Eu não sabia que a sua avó era rica!


- Nem eu sabia! Aliás acho que ninguém da minha família sabia. Vovó levava uma vida tão discreta. Dizia que não gostava de gastar muito...
- É, e não gastava mesmo. Só guardava, tá aqui a prova! - debocha Johnny segurando um dos montinhos de dinheiro.
- Gente, quanto que deve ter aí? - pergunto.
- Olhando assim por alto, uns 20 mil - afirma Johhny.
- O quê? Não, não pode ser tudo isso... - questiona Fabricia.
- Quer apostar? Meu pai era gerente de banco, de dinheiro eu entendo, herdei essa habilidade dele. Vamos contar?

E é o que fazemos, sentamos no chão do quarto e cada um pega um montante de dinheiro e começa a contar. E dito e feito, havia ali 20 mil Reais! Ou melhor, R$ 20.332,00 para ser mais exata.

- Eu não tô acreditando que minha avó tinha 20 mil Reais escondidos debaixo do colchão... - fala Mallu ainda abasbaquada.
- Na verdade R$ 20.332,00 - ironiza Johnny usando uma nota de 100 Reais como leque.
- Amor, o que você vai fazer com tudo isso? - pergunta Fabricia.
- Bom, levar pra minha mãe e juntas vamos decidir o que fazer. Afinal ela era a filha e ela é quem tem direto a isso.
- Verdade.
- Mas você não vai ficar com nada, não? - pergunta Johnny na latinha.
- Johnny que feio! O dinheiro é da mãe da Mallu! - afirmo, lhe dando um tapinha de leve no braço.
- Feio é matar, roubar, passar fome e ser Ex-BBB.
- Sou obrigada a concordar com o Johnny! Amor, você não vai ficar com nada, não?! - pergunta Fabricia.
- ... bom... tenho certeza de que vovó não se importaria se eu pegasse os R$ 332 desses 20 mil, né? - ela afirma.
- ... É!!! - nos 3 concordamos.

Assunto encerrado, encontramos 20 mil Reais debaixo do colchão que estava sob a cama da avó de Mallu e este foi devidamente entregue a sua mãe.



10 de março de 2018
Meu apê em Laranjeiras (meu até às 10h de hoje)
8h am

É chegada a hora de fazer algo que me dói bastante mas não tenho muita alternativa, vou devolver o apartamento e me mudar temporariamente para a casa de minha tia (DE NOVO!), até conseguir um outro lugar para morar.

Com a ajuda de Pedro, Flor de Liz e Rodinéi eu estou terminando de empacotar as coisas e já já o pessoal da mudança vem até aqui pra pegar tudo.

- Melhor assim, Camila. Melhor assim. Você vai ver, morar comigo até que as coisas se acertem vai ser melhor pra você - diz minha tia enquanto segura Cake, que está agitadissíma.
- Sim tia, tenho certeza de que será melhor assim.

OLHO PARA A CÂMERA E FALO:
- Porra nenhuma! Só tô indo pra casa dessa bruaca porque não encontrei nada em conta! E, pra ser sincera eu não consigo tirar aquela casinha linda da Cardoso Júnior da minha cabeça. Na moral, eu daria todo o dinheiro do mundo para me mudar pra lá...

De repente eis que chegam Mallu e Fabricia:
- Cacau, CACAU! - grita Mallu.
- Mallu? Fabricia? O que fazem aqui? Pensei que não iam poder me ajudar hoje - estranho.
- Cacau você não sabe da maior? Aconteceu uma coisa muito foda, cara! Tipo, muito foda mesmo! - explica Fabricia visivelmente feliz.
- O quê que houve, gente? Vocês estão me deixando assustada.
- Cacau, sabe o dinheiro que encontramos debaixo do colchão da minha avó? - pergunta Mallu.
- Sei, o que tem?
- Então, eu o entreguei a minha mãe e minha mãe meio que ficou sem saber o que fazer com ele no início porque era uma grana boa mesmo! Mas daí, depois de muito pensar, ela decidiu me dar metade de todo o dinheiro!
- Jura?! Porra que foda isso! - exclamo.
- É, e foi daí que eu conversei com a Fabricia e a gente teve uma ideia brilhante. Mas antes a gente quer saber se você topa?
- Aí Meu Deus, que ideia?
- Cacau, sabe a casa que você nos falou? Aquela na Cardoso Júnior? - pergunta Fabricia.
- A casa fofa de portão verde, 2 quartos e banheiro com banheira?
- Essa mesma!
- Claro que sei, é a minha casa dos sonhos... mas o que tem ela?
- Bom, como você sabe a gente também tá afim de se mudar, morar juntas e pelo o que você nos contou, essa casa é perfeita. E tem 2 quartos, é grande, e... bom, tem banheira!
- E cabem nós 3, certo? - pergunta Mallu.
- Sim, cabem nós 3... e a menina Cake.
- E a menina Cake, óbvio! - concorda Fabricia.
- Cacau, com esse dinheiro nós podemos dar entrada no aluguel dessa casa - explica Mallu - e com isso nós 3 podemos morar juntas. Vai sair mega barato pra geral, eu durmo no quarto com a  Fabricia e você no outro com a Cake. Eu não tô ganhando assim muita coisa com o meu emprego atual mas minha mãe concordou em nos ajudar caso precise. E em termo de móveis, você já tem as suas coisas e eu fiquei com outras da casa da minha avó e assim dá pra gente mobiliar aquilo lá! Ou seja, vamos morar juntas, Cacau! Eu, você e a Fabricia e a menina Cake! Vamos alugar essa casa fofa na Cardoso Júnior e vamos recomeçar nossas vidas! O que acha? Topa embarcar nessa?

...num tô bem... eu ouvi o que eu acabei de ouvir? É isso mesmo? Eu vou continuar em Laranjeiras e vou poder morar na casa fofa da Cardoso Júnior?!


MÚSICA DE CENA:

12 de março de 2018
Cartório Laranjeiras
13h11 pm

- Prontinho, contrato assinado e registrado. Parabéns meninas, a casa é de vocês! Tá aqui a chave - diz Raíza me entregando o molho de chaves.

OLHO PARA A CÂMERA E FALO:
- É isso mesmo, a casa fofa do número 20 da Rua Cardoso Júnior agora é minha. Ou melhor, nossa! Mas ô, a banheira rosa é mais minha que delas, viu!


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