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Cacau dos Santos

Designer Web Designer Cool Hunter Mídias Sociais e nas horas vagas... Blogueira!

19 abril 2017

Licor de Cacau - 1ª Temporada - #9 - Divã

  • abril 19, 2017
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Imagem: Unsplash
(1) Sobre fundo preto surgem, em letras brancas, sucessivamente, as seguintes frases: 

AVISO: A história a seguir contém linguagem atípica, palavrões, termos em inglês, muitos pontos de exclamação e referências da cultura pop e, devido ao seu conteúdo, este pode causar crises de risos e nostalgia aos leitores. Todos os personagens e eventos - mesmo aqueles baseados em pessoas reais - são fictícios. Se por ventura você se identificar com algo que foi escrito ou com alguém citado, isso significa que a sua loucura se parece um pouco com a minha e aproveite esse momento de coincidência para me seguir no instagram: @thecacaudossantos

(2) As frases desaparecem em fade e surge título da série seguida da primeira cena

LICOR DE CACAU
EPISÓDIO 9 – DIVÃ
Escrito por: Cacau dos Santos

Rio de Janeiro, Vila Isabel
3 de agosto de 2015
9h47 am

Contar uma coisa pra vocês, eu odeio agosto! E odeio segundas! E começar a primeira segunda-feira do mês de agosto indo FORÇADA para a terapia é de foder! Tinha de ser ideia de minha Tia, mas não tenho muita opção, estou morando na casa dela (a contra gosta) e a broaca me chantageou a fazer terapia em troca de me ajudar a alugar um apê pra mim. Foi barganha e tive de aceitar, fazer o quê Não tenho onde cair morta nesse exato momento e meu dinheiro reserva já foi todo gasto, então...

- Chegamos. – diz ela naquela voz gélida de sempre.
- É aqui?! – pergunto assustada olhando para a fachada da casa.
- Sim, é aqui, se acabei de dizer que chegamos. – afirma ela.
- Desculpa, eu não estou duvidando de você mas é que eu não imaginava um consultório assim...
- Assim como? – ela me interrompe com uma pergunta.
- Assim tão fofo e aconchegante.

Isso porque era uma casa de vila com uma fachada fofa e aconchegante.

- Ela atende em casa, por isso esse ar maternal – explica ela já tocando a campainha.

E não demora muito para que uma figura feminina abra a porta e nos receba. É a Dra. Luiza, deve ter por volta dos 50 anos, negra, alta, corpo magro, cabelos longos e cacheados, num look neutro, um ar sereno... posso te abraçar, senhora? Você parece ser aquele tipo de mãe que dá uns abraços tão carinhosos e tô precisando tanto de um assim!

- Rosa, como vai? – pergunta ela a minha Tia numa voz calma e que tranquiliza.
- Olá Dra. Luiza. – e as duas se cumprimentam com um aperto de mão e dois beijinhos na bochecha.
- Podem entrar. Você deve ser a Camila? – pergunta ela olhando em mim direção.
- Sim, sou eu, a louca, hahahahaha. – respondo ironizando a situação mas sou a única que acha graça na piadinha infeliz que acabei de fazer.
- ...OK, entre. – insiste ela colocando a mão suavemente em meu ombro.

Qual foi, a consulta toda vai ser assim? Nessa paz celestial?... Tá né.

Entro na casa e me deparo com um ambiente todo clean e minimalista. Parede branca, só 1 quadro pendurado numa das paredes (e esse quadro, por usa vez, tem a pintura "A noiva", de Marc Chagall. Aquela do filme ‘Um Lugar Chamado Notting Hill’), uma janela grande e aberta mas com grades, um vaso de planta Comigo Ninguém Pode enorme, ao lado de um sofá cinza e macio, e do outro lado uma mesinha com algumas revistas e um abajour. Gostei daqui, não me perguntem por quê?

Dra. Luzia pede para que eu me sente enquanto ela leva a minha Tia para o outro cômodo da casa para uma conversa rápida antes de começar a sessão de terapia comigo. Concordo e me sente. Mas ao vê-las se trancarem na outra sala eu disfarço por alguns segundos e depois me levanto e corro para ouvir a conversa atrás da porta mas tomando o máximo de cuidado para que a minha sombra não apareça por aquela frestinha.

Só consigo ouvir a voz da minha Tia citando algo como “depois que perdeu a mãe ela perdeu o rumo das coisas”, tá, “perdi o rumo das coisas”, começou falando merda. Depois ouço um “não tem controle emocional”, como é? Eu? Olha o sujo falando do mal lavado. Me poupe... depois ouço algo como “não fala mais com o pai e não sabe o que fazer da vida?”, opa, o quê? Não é porque parei de falar com o meu pai que não sei o que vou fazer da vida. Na verdade eu sei exatamente o que quero fazer, só não tenho condições financeiras pra isso no momento! Daí ainda ouço um “fiquei sabendo por alto que se envolveu com um rapaz que feriu seus sentimentos e lhe deixou uma grande mágoas. Não sei quem é o sujeito mas me parece que era noivo de outra menina ou algo parecido”, É O QUÊ? PUTA QUE PARIU, contaram pra ela do Filho-Da-Puta-Da-Tijuca mas nada a ver esse lance de “noivo”, era namorada, NAMORADA... bom, namorada até que eu saiba. Vai que era noiva mesmo?... Será que minha tia sabe mais dessa história que eu?... Por fim escuto um “está na minha casa porque não tem condições de se sustentar sozinha e pretendo ajuda-la” e isso me enoja. Minha Tia fez soar que sou uma completa incompetente que fracassou na vida e agora está na sua aba. Me afasto da porta e volto a me sentar no sofá cinza fofo.

Cruzo as pernas e os braços e fecho a cara. Não acredito que estou aqui e nessa situação patética. Nada a ver. NADA A VER! Eu não preciso dessa porra de terapia, preciso só de paz! Isso não é óbvio?

15 minutos depois de conversa e eis que minha tia sai do consultório e avisa:
- Já pode ir, ela te espera lá dentro.

Até que enfim! Vamos acabar logo com essa palhaçada. Entro no tal quarto que tem um divã vintage em tom de verde musgo e vejo Dra. Luiza sentada numa cadeira amarela de frente a esse divã, segurando um pequeno bloco de anotações. Ela pede que me sente e eu obedeço.

- Então Camila, o que está achando de estar aqui? – pergunta ela num tom simpático.
- Aaah, legal. – respondo despretensiosamente.
- Haha – ela ri uma risada gostosa – Só isso, só legal?
- É, só legal. – respondo tentado parecer não me importar ou abalar com a situação.
- Você concorda com essa sessão?
- Bom... – penso por alguns segundos - ...não é que concordo, mas também não discordo.
- Como assim?
- Bom, veja bem, acho importante ter alguém com quem conversar, desabafar, um acompanhamento com um especialista mas no meu caso, no meu ponto de vista, a situação não é pra tanto. Eu estou bem dadas as circunstâncias. Só estou passando por uma fase ruim e conturbada mas quem não passa por isso uma vez na vida? Então, chegou a minha hora!
- Uuuh... – e ela anota algo no bloco.

Vê escrever algo naquele bloco me incomoda mas disfarço e continuo a explicação:
- Minha tia acha que pode ter o controle de tudo e de todos, sempre foi assim, desde que eu era criança, era assim até com a minha mãe. Ela é meio mãe de todos, “A Matriarca” como apelidei. Ela acha que essa “liderança” é a correta para o bem de todos mas perde muito tempo tomando conta de nossas vidas ao invés de tomar conta da vida dela.
- Uuuh... – e ela anota mais alguma coisa no bloco e isso está me deixando curiosa.

Respiro fundo e encerro minha explicação:
- Então basicamente é isso, estou aqui mais porque ela assim quis. Porque acha que preciso disso mas, sinceramente, não acho que preciso.
- E por que acha isso?
- Porque foi o que lhe disse, é só uma fase ruim e vai passar.
- E como está se sentindo ao passar por essa “fase ruim”?
- Me sinto como qualquer um se sentiria! Mal! O quê é normal! Estranho seria você estar ali no fundo do poço e estar sorrindo!
- Então você se considera no fundo do poço?
- É! Digo, não! Digo... – e paro e penso por alguns segundos – eu... acho que estou no meio termo nesse momento, quer dizer... estive no fundo do poço quando minha mãe morreu. Aquilo foi um golpe muito forte pra mim. Eu disse a ela na época “mãe, pare de fumar” mas ela não me ouviu. Eu disse “mamãe, deixa o papai de lado e vai ser feliz pois esse casamento ainda vai acabar com você” e acabou literalmente falando! Eu avisei mas ela nunca prestou atenção, foi cabeça dura até o último segundo de vida. E olha no que deu? OLHA NA MERDA QUE DEU! E desde então minha vida tem sido tiro, porrada e bomba! E não é fácil viver assim num campo minado, com uma tia que parece a extensão do demônio no seu cangote e, SEM OR, já viu que ela tem o cabelo mais impecável de laque do Brasil? VAI ABRIR UM BURACO NA CAMADA DE OZÔNIO COM A QUANTIDADE DE LAQUE QUE USA NAQUELE CABELO! EU ODEIO AQUELE CABELO! E ODEIO CIGARROS! E ODEIO O FATO DE QUE MINHA MÃE SE FOI E ME DEIXOU AQUI SOZINHA E TUDO PIOROU DESDE ENTÃO! Essa é que é a verdade! Se ela tivesse cuidado melhor da porra da saúde, ela estaria aqui agora, viva! Tomando conta de mim e enchendo a porra do meu saco como sempre fez! Era isso o que ela deveria ter feito mas não, teve de morrer e da pior forma possível! E como se não bastasse eu estou indo pelo mesmo caminho que ela, cegamente eu entreguei meu coração a um homem que tem um caráter tão duvidoso quanto o do meu pai e como é que eu fui tão estúpida a ponto de não enxergar aquilo o que era óbvio? O cara não presta! COMO EU FUI BURRA!BURRA! BURRA! BURRA! E a Letícia engravidou e eu tive de sair de casa e a Valentina não me apoiou como achei que fosse me apoiar e eu tive de sair da casa dela também e agora estou morando com a minha Tia porque não há a menor possibilidade de voltar a morar com meu pai e a “novinha” dele então ou é isso ou é a rua e eu morro de medo de virar mendinga e eu odeio tanto o meu trabalho que às vezes penso em sair matando geral e depois me matar só pra evitar a cadeia! AÍ MEU DEUS EU TÔ MUITO NO FUNDO DO POÇO, CARA!

E, claro, começo a chorar convulsivamente. Desesperadamente! Chorar de soluçar! Dra. Luiza está até sem ar, foram muitas informações em menos de 1 minuto. A única coisa que consegue fazer é pegar uma caixa de lenços de papel e me oferecer. Pego a caixa, enxugo minhas lágrimas e começo a respirar fundo numa tentativa (frustrada) de me acalmar.

É aí que ela fala:
- Acho que vamos ter de aumentar sua vinda aqui para 2x na semana ao invés de uma. Pelo menos nos próximos 2 meses.
- Tá bem! – concordo dando uma cafungada.

E assim me entreguei a terapia.

Nas duas primeiras sessões da primeira semana eu falei abertamente sobre a minha mãe:
- Ela era um saco. Sério, um pé no saco total! Só me teve então me amava tanto que me sufocava! Eu só queria ter um pouco mais de espaço e liberdade para poder fazer determinadas coisas que garotas da minha idade faziam como ir a uma festa ou usar um sombra preta de olho mas não, ela não liberava nada. Dizia que era coisa de puta e me reprimiu o máximo que pode. Isso porque tinha medo que eu virasse mesmo uma puta mas nada a ver. Não confiava na própria disciplina que me dava então me prendia, me criava pra ela e me amedrontava o máximo que dava. Não à toa eu demorei tanto pra perder a virgindade e quando perdi eu tive um cagaço do caramba porque parecia que ela sabia! Parecia que ela sentia o cheiro de sexo no meu corpo! Eu fiquei paranoica e levei 1 ano pra transar de novo, acredita? Eu odiava a minha mãe e hoje eu sinto uma falta absurda dela. Sabe o que parece? Castigo. Castigo do universo, do tipo “Viu, desdenhou e agora quer de volta”. É, tipo isso, a quero de volta mas sem as manipulações emocionais porque ela era PHD nisso, hein! A gostaria de ter de volta sem as manipulações e os cigarros. Sabe quantos maços ela fumava POR DIA? DOIS! DOIS MAÇOS DE CIGARRO, isso é ser suicida, loucura! Não me conformo, simplesmente não me conformo.
- Mas foi a escolha dela – explicou Dra. Luiza.
- É, eu sei, eu sei, mas... me incomoda até hoje o fato de saber que ela jogou a saúde dela no ralo. Me incomoda e revolta. Sinto raiva dela. Isso não se faz. Não me conformo e ponto.

Nas duas sessões da segunda semana eu falei abertamente sobre o meu pai:
- É um sujeitinho ogro, retrógado, machista e sem cultura. Traiu minha mãe a vida inteira, dá pra acreditar? Esfregava as amantes nas fuças dela. Não tinha limites, paquerava até minhas amigas! Uma vergonha. Mas sempre foi um doce de coco com os outros, um gentleman, um sedutor, de conquistar legiões! Sério, se ele tivesse interesse por política e se candidatasse a deputado de São Gonçalo, ganhava fácil por votos. É aquilo, da porta pra fora, um exemplo, da porta pra dentro, um jumento! Quando eu era criança eu o admirava, ele era meu herói! Enchia a boca para falar bem do meu pai e até nos dávamos bem. Mas daí eu cresci e comecei a enxergar quem ele realmente é. Eu vi o seu carácter e isso me feriu tanto. E me enojou! Daí desci a ladeira a baixo na raiva e da decepção. Parei de falar com ele aos 17 anos quando cheguei mais cedo da escola e o flagrei tentando beijar uma vizinha nossa que era só 1 ano mais velha que eu! Aquilo foi demais! Pra ele eu deveria fazer como a minha mãe e fingir que não via nada e não sabia de nada e me calar, mas eu não era a minha mãe, eu era o oposto dela. E falei tudo o que tinha pra falar e depois não falei mais. Me calei, pra ele. O ignorei por completo. Até hoje o ignoro. Pra mim é como se estivesse morto. Era para ele ter morrido no lugar da minha mãe e não o contrário. Não aceito isso, ela ter partido e ele ter ficado.

Nas duas sessões da terceira semana eu falei abertamente sobre a minha tia:
- É uma vaca. Ponto.

Nas duas sessões da quarta semana eu falei abertamente sobre o Filho-da-Puta-Da-Tijuca:
- O que as pessoas não entendem é que eu me apaixonei por ele porque ele parecia ser a personificação de tudo aquilo o que sempre busquei em um homem. Era bonito mediano, nunca quis um homem feio e nem bonito demais porque me achava mediana e tinha de ter um homem mediano também pra igualar. Nem demais e nem de menos. E o C. tinha a beleza perfeita para a minha beleza mediana. Era culto, gostava das mesmas coisas que eu, falávamos a mesma língua e os assuntos não tinham fim e como é bom quando conversamos com alguém que tem a mesma vibe que nós. Nunca conheci nenhum homem que falasse A MESMA língua que eu então ele era um achado! O beijo era ótimo, OK, parece fugaz o que vou dizer mas lá vai: antes dele só o cara que tirou meu B.V. soube me beijar direito, os outros foram significativos. Daí encontro um cara que sabe falar a mesma língua que eu e ainda beija bem, nossa, ISSO É UMA BENÇÃO! E por fim o sexo, aaah o sexo... sem comentários, era ótimo. O danado sabia fazer as coisas direito... bom deve saber até hoje. Enfim, era isso, ele era O Cara, não tinha como eu estar errada?! Mas eu estava, muito, totalmente! Pior é que seu eu tivesse mesmo ficado com ele ia terminar vivendo um casamento como o da minha mãe. Imagina eu sendo A Dona Lourdes? Cruz Credo! O que me deixa mais com raiva é isso, o C. me enganou assim como o meu pai enganou a minha mãe e saber que fui tão otária quanto ela me revolta! Logo eu sendo otária?! Aaaaah não!

Nas duas sessões da quinta semana eu falei abertamente sobre o meu trabalho e minha carreira:
- Odeio meu trabalho e começo a me arrepender de ter escolhido design como profissão. Ponto.

Nas duas sessões da sexta semana eu falei abertamente sobre os meus amigos:
- Morro de vergonha de reclamar da minha vida para a Valentina. Deveria ser o contrário. Quem sou eu para me queixar de qualquer coisa quando se tem uma amiga que enfrenta problemas sérios e reais o tempo todo e a toda hora? Eu, sei lá, me sinto uma vaca egoísta e egocêntrica quando coloco os pontos numa balança. Por um outro lado não posso deixar de sentir o que sinto. E para os meus outros amigos eu tento passar uma imagem boa e de equilíbrio porque quero ser um bom exemplo pra eles, por ser a mais velha eu sinto que eles se espelham em mim então ainda há esse conflito interno mesmo que eles não me cobrem a respeito. Mas eu me cobro a respeito! Eu gosto de ser um bom exemplo. Eu gosto de ser A equilibrada.

E depois de 1 mês e 1 semana de terapia, depois de muitos choros, lamentações e desabafos, eis que confesso aquilo o que não tive coragem de confessar nos últimos 2 anos:
- Eu sou uma pessoa feliz mas estou infeliz desde que minha mãe morreu.

Pronto, fim do mistério, eu precisava viver um pouco mais o luto.

Dra. Luiza acabou sedo um alívio na minha vida nessa fase, desdenhei tanto da terapia que, depois da primeira sessão, passei a contar os dias e as horas para me encontrar com ela! Nunca chegava atrasada e pra ir embora era doloroso (pra mim). Mas assim foi e assim tem sido nesses 1 ano e meio e hoje vamos para a nossa primeira sessão de 2017! #ansiosa


Rio de Janeiro, Vila Isabel
6 de março de 2017
10h am em ponto

E ela libera o paciente anterior e me chama para dentro do quarto/consultório. Me deito no divã vintage verde musgo, como de costume, e fico encarando o teto breco. Ela se sente na cadeira amarela a minha frente, como de costume, cruza as pernas e faz a boa e velha primeira pergunta da sessão:
- Então Camila, o quê conta de novo?
- Dra. Luíza... acho que estou prestes a ter relações sexuais com o meu melhor amigo de infância.
- Uuuuh – ela disfarça mas percebi que ficou meio que sem palavras, por essa ela não esperava, nem eu esperava! – E o que faz achar que isso está prestes a acontecer?

Permaneço deitada mas viro o corpo em sua direção:
- Bom Dra., pra início de conversa eu reencontrei um grande amigo de infância, o Chouri. O nome dele é Antônio mas o chamo de Chouri desde... desde de sempre! O apelido pegou no jardim de infância. Cantava até pra ele uma música do The Clash, ‘Rock the Casbah’, porque achava que os caras falavam “chouri” no refrão! Coisa de criança... enfim, eu e Chouri erámos inseparáveis, melhores amigos, ouso dizer que ele foi o primeiro homem da minha vida. Nunca fui muito de me relacionar com mulheres, você sabe, o sexo masculino sempre me agradou mais e começo a crer que isso se dá por conta do Chouri. Bom, como já deu pra perceber eu nunca o vi com malícia, pelo contrário, era meu amigo mesmo e tamanha foi a minha felicidade ao reencontra-lo depois de anos! Só que aconteceu algo muito louco nesse último final de semana, Chouri tem uma banda de heavy metal e eles fazem covers de outros artistas e ele me chamou para ver uma de suas apresentações. Levei uma amiga comigo e tudo estava indo muito bem e eu jurava que ele ia ficar com essa minha amiga até que, do nada, ele aproveitou uma onda que eu estava tendo e me beijou!
- Onda? – pergunta ela sem entender.
- É, onda, eu... – êxito um pouco mas explico - ... eu fumei um pouco de maconha aquela noite. Mas bem pouco, um dos colegas de banda do Chouri me ofereceu e eu estava me sentindo super a vontade e dei um teco de leve. Fazia tempos que não fumava, quase 1 ano, então pensei “por que não?”.
- Certo, e onde foi isso?
- Na casa do Chouri, depois do show que eles deram. Fomos para lá para um estica e daí aconteceu isso, eu dei 1 teco, tava de boas curtindo o som que tava rolando, curtindo a vibe e quando dei por mim ele estava me beijando. Foi tão estranho. Eu fiquei com tanta raiva que só consegui lhe dar um empurrão e sair fugida dali. Deixei até a minha amiga pra trás na hora da raiva, coitada. Que vacilo! Nunca vou me perdoar por ter deixado a Alice para trás!
- Uuuh, e o quê aconteceu depois disso?
- O Chouri veio atrás de mim, pediu desculpas mas se declarou, confessou que sempre sentiu alguma coisa a mais por mim mas eu não queria saber de mais nada então fui correndo pra casa e só no dia seguinte eu pude colocar as ideias no lugar. Ele me mandou uma mensagem pedindo desculpas, ou melhor, várias mensagens, e depois de muito relutar eu o perdoei. E então eu não resisti e liguei para o Pedro e contei a ele o que aconteceu. Me senti na obrigação de fazer isso. Sei lá, não somos namorados nem nada mas me pareceu o correto. Foi como se eu tivesse “traído” entre aspas o que temos. Nunca rotulamos nada, ou melhor, eu nunca quis rotular nada mas eu quis lhe dar a devida satisfação. Antes não tivesse dado.
- Por quê?
- Porque o Pedro foi seco, antipático, meio ignorante. Acho que não gostou de saber que estive com outro cara se bem que eu NÃO estive com outro cara mas, se fosse o contrário, também não teria gostado da situação.
- E a questão de se relacionar sexualmente com o seu amigo, por que acha que isso está prestes a acontecer se você não o vê assim? - Porque está. Meu radar tá apitando! Sinto isso dentro de mim, quando o Pedro me esnobou o radar começou a apitar como quem diz “ele não te quer mas o outro sim então fique com quem te quer”. Chame isso de sexto sentido, intuição feminina ou o caralho a quatro mas é o que está acontecendo.
- E você realmente não sente nada por esse Chouri?
- ... – paro e penso por alguns segundos, eu realmente não sinto nada pelo Chouri? - ... olha, até aquele beijo eu não sentia nada mesmo além da amizade. Mas naquela noite tudo mudou. Vê-lo cantar já tinha me feito enxerga-lo com outros olhos, ele parecia tão mais másculo e confiante e isso me seduziu, não vou negar, mas toda garota fica seduzida por um cara cantando em cima de um palco. Mas daí veio o beijo... e fiquei balançadinha. – e tento controlar um sorriso bobo que insiste em surgir.
- Balançadinha? – questiona Dra. Luiza também com um sorriso estampado.
- É, balançadinha, mas só um pouco. Não acho certo e nem correto me apaixonar pelo Chouri, ainda mais agora.
- E por quê não acha correto?
- Porque é o Chouri! O meu amigo Chouri, o que me mostrou que meninos fazem xixi em pé, que dividiu comigo a sua cueca, erámos íntimos demais para agora, nos 45 do segundo tempo, nos apaixonarmos! Transar tudo bem, mas nos apaixonar aí vai dar problema! Amor sempre estraga tudo.
- Como estragou com o Pedro?
- ... – OK, agora ela pegou pesado - ... como quase estragou com o Pedro, teria estragado se tivesse lhe dito o que sentia. Ou não, não sei, nunca saberei, ele se foi e nem deu tempo de abrir o jogo a ele. Se bem que eu não queria isso. Da última vez que abri o jogo pra alguém esse alguém foi um filho da puta comigo e pirou tanto a minha cabeça que me fez parar aqui nesse seu consultório. Por isso hoje eu prefiro não expressar mais meus sentimentos, fica assim, subentendido.
- Mas se não contar ao Pedro o que sente, como é que você vai resolver as coisas com ele? – é, ela tá pegando pesado mesmo! - Eu tenho medo de contar, Dra. Luiza, contar e ele somir também. Perder o Pedro seria doloroso demais. Mais do que foi quando o Filho-Da-Puta-Da-Tijuca sumiu sem dar nenhuma explicação.
- Eu sei que você teme perder o Pedro mas enquanto não enfrentar seus medos você nunca vai viver aquilo o que quer viver. Também não basta insistir pra fazer algo que claramente você não está pronta para fazer mas uma hora você terá de encarar os fatos. Principalmente agora que ele está longe. Já lhe ocorreu que, da mesma forma que você está se envolvendo com esse seu amigo Chouri, ele também pode estar se envolvendo com outra mulher?
- ... – me calo e sinto meu coração gelar.
- Nunca nenhum dos dois falou abertamente sobre o que havia entre vocês e com isso o caminho ficou meio que indefinido, o que pode levar a situações inesperadas, como foi o caso desse beijo. Mesmo que você não tenha tomado partido, você gostou, você já estava de olho no outro sujeito e você mesma admitiu que há grandes chances de vocês se envolverem sexualmente. Então o Pedro também está livre para o mesmo.
- ... – meu coração gela de novo.
- O que você vai ter de decidir é o que fazer a partir de agora? Vai tentar resolver as coisas com o Pedro, mesmo que a distância, ou vai tentar algo novo com esse amigo que reapareceu e lhe está fazendo sentir coisas novas?
- ... – continuo muda e com o coração gelado.
- Pense bem antes de tomar o próximo passo. Mas pense com bastante cuidado para não se arrepender.

Que mulher, meu Deus, QUE MULHER! Mas a verdade é que eu não precisava pensar muito, eu já sabia o que queria, queria o Pedro. Só não sabia se ele ainda me queria?!

A sessão acaba às 11h em ponto. Dra. Luiza me libera e, na sequência, recebe o outro paciente, um cara com cara de nerd e que deve ter lá os seus 20 e poucos anos. Nunca trocamos uma palavra além de “oi” e é sempre assim, eu saio e ele entra, até a próxima sessão.

Assim que saio da casa/consultório, pego o celular de dentro da bolsa para ver se há alguma mensagem de Pedro. Nada, mas há de outros amigos, incluindo o Chouri.

ANTÔNIO/CHOURI: Tá msm tudo bem entre nós 2?

ALICE: Gata, como vc está? Manda notícias, bjs, te amo.

JOHNNY ENVIOU UM VÍDEO: http://www.whatstube.com.br/o-dj-do-oh-o-gas/

TOMAZ: Oi Cacau, tudo bem? Fiquei sabendo que você foi demitida, que barra! Cara, abriu uma vaga aqui na agência onde estou, posso te indicar? Me manda seu currículo que passo para o pessoal do RH. Bjs!

Opa, eu li o que li? Tomaz querendo saber se pode me indicar para uma vaga de designer na agência onde ele está trabalhando? Claro que pode! Estou atrás de uns freelas mas o mercado tá difícil e temo que o $$ da rescisão acabe antes de eu ter resolvido essas questões e aí como farei para pagar as contas? Me sustentar? Imaginem eu ter de voltar a morar na casa da minha Tia? Deus, por favor, não! Prefiro deixar meu ranço por agências de comunicação de lado e me jogo na oportunidade que surgiu e respondo Tomaz na hora:
EU: Oi Tommy, pode sim, por favor! Super agradeço esse QI. Assim que chegar em casa eu te mando um e-mail com meu currículo e dados do meu portfolio online para você passar para eles. Vlw ;*

E é o que eu faço assim que entro em casa, corro para o notebook, abro o outlook, envio o e-mail com meus dados e rezo para que tudo dê certo!

De: oi@cacaudossantos.com
Para: tomaz.design@gridbr.com

Assunto: Vaga de designer
Oi Tomaz, tudo bem?
Segue meu currículo + portfolio online para avaliação referente à vaga de designer.

Desde já agradeço pela sua indicação.

Bjs!

Att.:
Cacau dos Santos
(21) 9999-31199
www.cacaudossantos.com
www.behance.net/cacaudossantos
br.linkedin.com/in/cacaudossantos


Tomaz e eu nos conhecemos na RJ Produções, fui contratada para ajudá-lo com as artes das mídias sociais da Chega+ Hipermercados, mas uns 5 meses depois ele pediu demissão pois havia conseguido uma proposta melhor numa outra agência chamada GRID. Uma pena a sua saída pois ele era/é um amor de pessoa, um ótimo colega de trabalho, sem contar que toda a demanda ficou nas minhas costas! Mas enfim, a amizade seguiu e agora apareceu essa proposta e, que coisa, ele se lembrou de mim! Fico feliz e lisonjeada. O foda é que a tal agência onde ele está é na Barra da Tijuca! BARRA! Gente, ir para a Barra é uma barra! Mas é o que tem pra hoje, né? A ideia de ser freelancer não está dando muito certo então... #boratorcer

Pego o celular novamente e lhe mando uma mensagem dizendo que já encaminhei o e-mail com todos os meus dados. OK que não era necessário fazer isso já que ele vai ver na caixa de entrada mas quis fazer isso assim mesmo. Estou parecendo desesperada? Nem um pouco, né? OK, OK.

Não deixo de reparar que Pedro continua sem se manifestar desde o último domingo, quando lhe contei do ocorrido. É, ele tá mesmo puto comigo. Sinto vontade de quebrar esse silêncio lhe mandando um simpático “Oi” mas me seguro, o melhor a se fazer é deixa-lo extravasar a raiva e quando tudo passar a gente conversa a respeito e resolve tudo. Sem mais dramas.

E falando em drama me deixa logo responder o Chouri e acabar com essa palhaçada, se o perdoei então o perdoei e vamos seguir com a vida. Abro o whatsapp escrevo:
EU: Oi Chouri, está mesmo tudo bem entre nós, eu juro! Fica tranquilo ;)

Não demora muito para ele me responder com um emoji:
ANTÔNIO/CHOURI: :)

Rio de Janeiro, bairro das Laranjeiras
10 de março de 2017
6h59 pm

Já faz 5 dias que encaminhei o meu currículo para o Tomaz e, até agora, ele não disse nada e nem ninguém da GRID. É isso o que eu ODEIO nessas agências, elas anunciam a vaga, falam que é para INÍCIO IMEDIATO, você envia seu currículo na maior dedicação e empolgação e os caras levam a vida para te responder! Isso quando respondem porque tem aqueles que simplesmente cagam pra você! Um absurdo mas é a mais pura verdade. Tento controlar a ansiedade e ocupar minha cabeça com outras coisas como buscar freelas, mas até os freelas já estão me tirando do sério! O povo acha que ser designer é mamão com açúcar, que é só abrir o photoshop, clicar numas paradas lá e a arte tá pronta, por isso não há a necessidade de eu cobrar R$ 500 por um serviço, isso “tá caro”, fulano faz o mesmo por R$ 50! Aposto que fulano aprendeu a mexer no photoshop vendo tutorial no youtube e não sabe a diferença entre RGB e CMKY e chama O Logo de A Logo e por isso cobra R$ 50 por um serviço porcaria! Francamente...

Olho para o relógio e já são 7h03 pm, hora de levar a Cake para passear. Pego sua coleira peitoral e tento colocar nela, o quê é uma dificuldade pois essa cachorra não para quieta 1 segundo sequer!

- Cake se controla, por favor! – peço em vão. Ela agitada desse jeito parece o Taz Mania versão baby!


Na moral, que cachorra cheia de energia! Da ninhada eu tinha de ficar com a mais agitada? Sim, eu tinha de ter ficado com a mais agitada. Nossos destinos já estavam traçados antes dela nascer.

Enfim consigo colocar a coleira peitoral nela e a levo para passear pelo bairro. 1 hora depois, quando estamos de volta, quem eu encontro no meu condomínio, esperando o elevador?... O próprio, Chouri! Levo um susto:
- Chouri?!
- Camila?! – ele também se assusta.
- Tá fazendo o que aqui? Veio me ver?
- Aaah, na verdade não. Vim ver minha irmã, ela mora aqui, lembra?

Nossa, que tapa na cara! Por que fui me achar desse jeito?

- Claro, claro, sua irmã! HAHAHA – rio tentando disfarçar meu constrangimento – Ela mora em qual andar mesmo?
- Oitavo. E você?
- Sexto.
- Legal, e essa aí é a famosa Cake? – pergunta ele apontado pra ela.
- É sim, é o meu bebê! – a pego no colo e a aproximo dele, que começa a fazer farra de novo!
- Caramba ela tá louca! HAHAHAHA – Chouri brinca.
- Pois é, é demais esse ser humaninho de pelos. Parece que ela consumiu crack mas te juro que essa agitação toda é natural!
- HAHAHAHA, boa!

E o elevador chega e nós entramos.

- Você vem aqui com frequência? – pergunto.
- Agora sim, minha irmã está ensaiando uma peça com o namorado e pediu para ajuda-los.
- Sua irmã? Ensaiando uma peça?
- É, ela é atriz e vai estreia uma peça daqui a 2 meses.
- Jura? Que irado!
- É, e ela gosta que alguém de fora assista aos ensaios pois ela quer ter a certeza de que tudo está fluindo, que não está forçada na atuação e tal. É super perfeccionista. Mais que eu.
- HAHA, imagino.
- Quer ir lá assistir?

E por alguns segundos eu congelo no final de Avenida Brasil.


- E... eu? Ir assistir? – pergunto meio que gaguejando.
- Sim, você. Vai ser uma boa.
- Mas ela não vai se importar? Quer dizer, ela nem me conhece e eu já chego assim chegando, e com a Cake...
- Ela adora cachorro, vai querer roubar a Cake pra ela.
- NÃO, NEM PENSAR! Cake é minha! – respondo a segurando bem forte sob o meu peito.
- HAHAHA, relaxa, vai ser divertido.

E eis que o elevador chega no sexto andar, o meu andar, e tenho só alguns segundos para decidir... e decido que sim, por que não? #boralá

Subo até o oitavo andar com o Chouri e, quando dou por mim, já estou com ele de frente a porta do 832 do Bloco B. Chouri toca a campainha e logo sua irmã abre a porta.
- Tékinfim! Pensei que não vinha mais – responde ela já reclamando.
- Foi mal, tava terminando de resolver umas coisas lá no bar do meu pai. Mas oi, tudo bem com você? – responde ele em tom de brincadeira.
- Tudo, entra aí seu idiota.

E Chouri sai entrando pelo apartamento da irmã e eu sigo atrás, meio sem graça. É aí que ele se vira e nos apresenta:
- Julia essa é a Camila, uma amiga de infância, a que te falei que reencontrei ao acaso e que mora aqui no prédio também.
- Aaah sim, tá certo, a amiga do Miraflores! – ela se lembra.
- Essa mesma – e ele confirma.
- Oi! Prazer! Julia! – e ela se aproxima e de má 2 beijinhos na bochecha.
- Oi, prazer, Camila. E essa é a Cake. – falo mostrando minha york que ainda está no meu colo.
- Aí que coisa fofa! Posso segurar? – pergunta Julia.
- Pode, claro! Se conseguir porque hoje ela está atacadíssima!

E dito e feito, ao tentar colocar Cake no colo de Julia, está se joga no chão e foge porta a fora e segue correndo pelo corredor do Bloco B.

- CAKE! VOLTA AQUI SUA MALUCA! – grito em vão. Ela não está nem aí.
- Cake! Ô Cake! – chama Chouri que sai correndo atrás dela.

E, de repente, ela para!

PERAÊ! PARA TUDO! Deixa eu ver se entendi direito: eu chamo por ela e ela não atende. Eu, sua mãe. Mas aí o cara que me chega agora chama o nome dela e ela simplesmente para de boa! MAS É UMA SAFADA, ORDINÁRIA, FILHA DA MÃE!

E Chouri se aproxima e a pega no colo, volta para o apartamento da irmã, fecha a porta e a coloca no chão.

- Pronto, resolvido. – responde ele com toda a paz do mundo.
- Eu não tô acreditando, ela te obedeceu! – falo ainda em choque.
- O Antônio é encantador de cachorros. Tem mel esse puto. – explica Julia.
- Ou Pedigree sachê no meio das unhas – explica um jovem que estava sentado no sofá e se aproxima de nós – Prazer, Gerson.
- Prazer, Camila.
- Gerson é meu namorado – explica Julia – estamos ensaiando uma peça que vamos interpretar.
- Estamos TENTANDO ensaiar, é diferente. Até agora não passamos da primeira página do roteiro – explica Gerson.
- Pois não seja por isso, vamos passar agora! – avisa Julia exibindo o roteiro da tal peça.

Eu e Chouri nos sentamos no sofá da sala de estar enquanto Julia e Gerson (eCake) ficam em pé a nossa frente.

- Qual o nome da peça? – pergunto.
- “Noites com Sol” – responde Julia.
- Nossa, que profundo! E fala sobre...?
- Insônia amorosa – explica Gerson.
- Uuuh... OK – e faço que entendi mas não entendi porra nenhuma mas vamos ver como vai ser com eles atuando.

E eis que eles começam a interpretar uma das cenas da peça:
- Meu amor, passei toda a noite acordado pensando em seus lábios e, quando me dei conta, a lua já era sol, a noite virou dia e meu dia anoiteceu – citou Gerson.
- Amor meu, e como sabes que o dia é noite e que a noite é dia se ainda vives um sonho? Seu despertar nada mais é que uma miragem e essa miragem mais parece um sonho.

Tá... DA FOQUI que porra é essa?



Olho rapidamente para Chouri, que está sério, com uma das sobrancelhas levantadas, não sei se de intrigado com o que vê e ouve ou de DA FOQUI como eu estou me sentindo agora.

- Estou confuso entre o que é sonho e realidade, certo e errado, dia e noite mas nunca me confundo com o que sinto. Meu amor é teu e não há tempo ou hora que mude isso – interpreta Gerson segurando Julia pela cintura.
- Amor meu, se dizer que há me amas então acredito que há um sol no meio da noite porque nunca mentiu pra mim antes.

Olha, o texto pode não ser assim uma obra de Shakespeare mas vê-los atuando é fofo, tem sintonia, é romântico mas um romântico no ponto... gostei. Sei lá porque mas eu gostei!

Olho de novo para Chouri rapidamente que está deslumbrando com a irmã atuando.

Penso: Dá pra ver que ele gosta mesmo dela. Esse amor fraternal é louvável. É nessas horas que eu gostaria de ter dito um irmão, assim seriamos amigos e parceiros como Chouri e Julia são... mentira, se eu tivesse um irmão ou irmã ia ser um porre! Com certeza íamos nos detestar! Amor fraternal só funciona com os outros, dou graças por ser filha única mas admiro os irmãos que se gostam como esses 2 parecem se gostar.

Eles terminam de interpretar a cena e batemos palmas enquanto Cake late.

- Vou interpretar seus latidos como um elogio, Cake! – explica Gerson que começa a brincar com ela e todos nós começamos a rir.
- E aí, o que acharam? – pergunta Julia com os olhinhos cheios de brilho e esperança.

Chouri olha rapidamente pra mim e vice versa mas quem começa a responder sou eu:
- Olha, eu não entendi bolhufas do texto e o achei mela-cueca demais mas ver vocês dois atuando fez com que a cena ficasse tão romântica que não chega a ser aquele romance chato – e isso o que falei é verdade.
- Jura?! – ela pergunta ainda com os olhinhos brilhando.
- Juro!
- Concordo com a Camila – responde Chouri – achei o texto chato mas não tão chato porque vocês passam uma afinidade tão grande, dá pra ver que se gostam.

E Julia olha para Gerson com aquele olhar de mulher apaixonada e é retribuída.

- Sim, o gostar de vocês é nítido e faz com que a gente aprecie a cena – continuo explicando - mas agora eu queria ver vocês interpretando uma cena de raiva, de ódio pois de amor ficou muito fácil! – desafio.
- Mas tem cena de briga também, podemos mostrar!

E assim aquele início de noite foi completado com cenas dramáticas de teatro, muitos risos, doses de cerveja Antártica e muitas trocas de olhares e beijinhos entre Julia e Gerson e, claro, isso deixou a mim e Chouri um pouco constrangidos mas nada que pudesse estragar o clima da coisa. Como disse estou disposta a fazer com que nossa amizade siga em paz e sem mais nenhum abalo romântico e assim vai ser.
É aí que Julia se senta ao meu lado e começa a fazer perguntas sobre nós dois:
- Vocês não se viam a quanto tempo?
- Mais de 20 anos – explico enquanto dou um gole na minha lata de cerveja.
- Jura?! Caramba... e quem reconheceu quem na rua?
- Ela me reconheceu. – explica Chouri apontando pra mim.
- E como você conseguiu reconhecer o meu irmão depois de tanto tempo?! – Julia está chocada.
- Não sei te explicar, só sei que aconteceu. Eu vi o Chouri e senti que o conhecia de algum lugar mas não lembrava de onde. Daí quando tive a oportunidade eu puxei papo e foi aí que nos reconhecemos.
- E você não a tinha reconhecido antes, Antônio? – pergunta ela ao irmão.

Opa, essa até que quero saber!
- Eu já a tinha visto na rua algumas vezes mas não tinha reconhecido a Camila e nem tido a sensação estranha de “te conheço de algum lugar” como ela sentiu quando me viu mas quando falou comigo a primeira vez aí sim a ficha caiu – explicou ele.
- Nossa, a história de vocês dava uma peça, sabiam? – diz ela ainda abasquaquada.
- Na verdade digo a todos que minha vida dava uma série – explico.

Né não?!

- Tem razão, você deveria escrever sobre isso. – sugere Julia.
- Escrever?! – me assusto.
- É, e por que não? Escreva! Diga ao mundo o que se passa ao seu redor. Acho essas suas situações do cotidiano super interessantes. Vai que mais alguém acha? Por quê não compartilhar isso com os outros?

Escrever?... Puxa, não escrevo a tanto tempo... será que ainda levo jeito?

- Escrever... vou pensar nessa sua sugestão...


12:16 am
De novo não vimos a hora passar mas antes que a lua virasse sol e a noite virasse dia eu me retiro do apartamento de Julia e Gerson e volto para a minha casa. Me despeço de todos e ainda aviso:
- Agora que já sabem onde eu moro, sempre que quiserem me visitar ou precisar de qualquer coisa, é só chamar.

Dou um abraço em Chouri que me diz ao pé do ouvido:
- Obrigado por tudo.

Lhe retribuo com um sorriso, pego a Cake nos braços e volto para o meu apê. Que noite, é sempre assim, toda vez que encontro com o Chouri é sempre assim, coisas inesperadas acontecem mas inesperadas no bom sentido.

Chegando em casa eu tomo um banho rápido, coloco Cake para dormir na sua caminha, me jogo na cama, pego o celular que estava debaixo do travesseiro e dou uma última olhada no whatsapp pra ver se Pedro já se manifestou. Nada ainda. OK, esse silêncio dele já está começando a me irritar!

OLHO PARA A CÂMERA E BUFO.

Assim não dá, sério. Assim não dá.


Rio de Janeiro, bairro das Laranjeiras
13 de março de 2017
7h19 am

Estou despreocupada, na bancada da minha cozinha, passando um café quando recebo uma notificação no meu celular. O pego e vejo que recebi um e-mail do RH da Agência GRID. Meu coração gela de emoção por alguns segundos. Clico no ícone em forma de envelope e abro a mensagem que diz:

De: RH@gridbr.com
Para: oi@cacaudossantos.com

Assunto: Vaga de designer

Oi Cacau, tudo bem?
Recebemos o seu currículo e gostaríamos de marcar uma entrevista para essa quinta-feira (16), às 14h, tudo bem pra você?

Ass.:
Lipe Munhoz
Supervisor de Criação


Respondo na hora:

De: oi@cacaudossantos.com
Para: RH@oigrid.com

[Re] Assunto: Vaga de designer

Oi Lipe, bom dia,
Posso sim participar de uma entrevista nesta quinta, só me confirma o endereço da agência de vocês, por favor?

No aguardo e obrigada pela oportunidade.

Att.:
Cacau dos Santos
(21) 9999-31199
www.cacaudossantos.com
www.behance.net/cacaudossantos
br.linkedin.com/in/cacaudossantos


OK, eu tenho uma entrevista de emprego! Demorou mas o pessoal da Agência GRID entrou em contato e gostaria do meu currículo pois me chamaram para essa entrevista! Estou feliz! ESTOU ANIMADISSÍMA! Não queria estar tão animada assim mas estou!

Respiro fundo.

E volto para o meu corpo. Uma coisa por vez e guarde essa euforia toda só se for realmente efetivada. Enquanto isso calma. Respira, inspira e não pira!

Termino de passar o café, tomo tudo em 3 longos goles, corro para o banho, me arrumo e depois corro para o ponto de ônibus pois hoje tem consulta com a Dra. Luzia e, como falei, não gosto de me atrasar para as nossas sessões. Isso nunca!

9h02 am
Ao chegar conto a ela da novidade:
- Quando o Tomaz me indicou eu fiquei mesmo animada mas os dias foram passando e nada deles entrarem em contato então logo fui perdendo as esperanças e esqueci essa história. E justamente quando estava distraída, eis que recebo um e-mail do cara responsável pelo setor de criação, querendo marcar uma entrevista de emprego para essa quinta-feira já! Que coisa! Dizem que o amor vem para os distraídos, começo a crer que os empregos também!
- hahahaha – e Dra. Luiza ri discretamente.
- Não vou negar que andava bem frustrada... bem puta na verdade, com as ofertas que via ultimamente. Cada coisa surreal, sabe? Exigências absurdas, muita exploração e um salário de merda. Por causa disso eu tinha decidido seguir como autônoma por um tempo mas até pra conseguir freela tem exploração. É broxante, viu? Gosto da minha profissão mas se eu pudesse voltar no passado teria seguido por outra carreira. Não me conformo com isso, todo o esforço do designer nunca é reconhecido, subestimam demais o que eu faço e cheguei num ponto em que não consigo mais me conformar, deixar isso de lado. Mas as contas estão aí e precisam ser pagas, como ainda não arquitetei um plano B o jeito é voltar para o mercado de trabalho. A contra gosto mas voltarei!
- E se não fosse designer, você acha que seria o que?
- Não sei, acho que ia fazer Marketing ou Publicidade... mas sabe qual é a minha real paixão?
- Qual?
- Cinema. Sempre quis fazer cinema. Meu sonho era ser cineasta, dizia a minha mãe que eu seria a primeira brasileira negra a ganhar um Oscar. Até ensaiava o meu discurso na frente do espelho. Mas daí, como sempre, a vaca da minha tia estragou tudo, a pedido da minha mãe mas estragou. Na véspera dos meus 18 anos ela me disse que eu não ia fazer a graduação em cinema porque no Brasil isso não dá dinheiro e eu passaria fome. OK, ela estava certa, no Brasil são poucos os que se dão bem nessa área mas a questão foi a maneira como ela falou sobre isso, com aquela rispidez de sempre. Praticamente me obrigou a deixar esse meu sonho de lado, passou por cima dele com um rolo compressor. Disse que determinados sonhos são só um punhado de bobagens e que o correto era eu ter os dois pés no chão e me fez escolher uma outra profissão, algo que fosse rentável, de preferência. E foi o que fiz, depois daquela ducha de água fria e apoio zero da família. Engavetei meu sonho de ser cineasta e depois de 2 anos “vagando” eu me achei em design. E o resto da história a senhora sabe. Mas nunca esqueci o cinema, só não sinto mais motivação pra correr atrás disso. - Então você não se vê mais trabalhando como cineasta?
- Não mas... que coisa... ainda sinto vontade de escrever roteiros. Transformar determinadas situações do cotidiano em histórias interessantes. O gosto por escrever permanece vivo dentro de mim. Sabe o que a irmã do Chouri me disse quando nos conhecemos? Que eu deveria fazer isso, escrever! E desde então estou com essa ideia na cabeça, voltar a escrever!
- E por que não escreve?
- Porque ainda não me veio a inspiração. Ainda não sei bem por onde começar?
- Comece pelo início.
- Mas que início é esse eu não sei?!
- Não sabe ou não quer enxerga-lo?

... Boa pergunta!

- E se eu escrever sob nós duas? Esse Divã? Nossa sessões...
- Você vai pagar pelos direitos autorais?
- HAHAHAHA! – rio de nervoso, melhor deixar essa exposição de lado - OK, e se eu escrever sob a minha vida, será que alguém iria ler? - Depende, você quer que as pessoas leiam sobre a sua vida ou quer escrever só para extravasar?

... Outra boa pergunta!

- Escreva Camila – diz Dra. Luiza – apenas escreva e veja no que isso vai dar.

De novo essa mulher maravilhosa tem razão, eu preciso escrever, apenas escrever, e ver no que vai dar.


11h13 am
Não aguento mais o silêncio de Pedro e decido quebrar esse gelo que há entre nós. Pego o celular, abro o whatsapp e lhe mando uma mensagem:
EU: Oi Pedro, tá tudo bem?

11h 22 am
PEDRO: Oi. Tudo bem sim.

Direto e reto.

11h24 am
EU: Que bom. Como está o seu pai? E sua mãe? E as coisas em Juiz de Fora?

11h28 am
PEDRO: Bem.

Mais direto impossível!

11h30 am
EU: Que bom, fico feliz por vocês

 Tento ser o mais doce e amigável possível e sigo com a conversa:
EU: Quer saber de uma novidade?

11h38 am
PEDRO: Diga.
EU: Farei uma entrevista de emprego na próxima quinta, foi um QI de um ex-colega de trabalho. Vai ser numa agência de publicidade lá na Barra. É longe, é a Barra mas é uma chance. Estou bem animada!

11h46 am
PEDRO: Que bom.

Nossa, kipariu, viu!

Só consigo enviar outro emoji sorrindo e ele apenas visualiza e nada mais fala. Eu também não. Já vi que continua azedo. Darei mais tempo para que “adoce” as ideias.

Só me resta dá as boas novas ao resto da galera e, quando dei por mim, já estava enviando mensagem para Chouri também que me respondeu quase que de imediato:

ANTÔNIO/CHOURI: Que bom, gata! Fico muito feliz por vc, de verdade, vc merece ;)

OLHO PARA A CÂMERA E FALO:
- Tão vendo? Era esse o tipo de resposta que eu queria ouvir do Senhor Pedro! Um incentivo! Uma motivação! E não esse “que bom” seco e com gosto de chuchu que ele enviou. Francamente, se estivéssemos juntos eu hoje a noite não ia dar pra ele, não!

De repente meu celular toca, é Valentina. Deve estar me ligando para dar parabéns sobre a entrevista que consegui. Atendo logo no segundo toque:
- Fala mulher! – pergunto animadíssima.
- Oi Camila... – e ela me responde com a voz mais triste possível.
- Tá tudo bem? Não gostei desse seu tom de voz. - pergunto
- Camila... as coisas estão mais ou menos... – me responde ela com uma voz de choro.

Fico tensa e preocupada.

- Tina o que houve? Sua voz tá tão jurubel. Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu... – ela dá uma cafungada, como quem está controlando o choro, e por fim me explica a situação - ...eu fui hostilizada num restaurante.

UAU, ela me falando aquilo foi como levar um soco na boca do estomago.

- Você está em casa? – pergunto rápido.
- Sim, estou – me responde já com voz de choro.
- Estou indo aí agora.

PENSO: Nesse momento não importa os meus problemas amorosos, minha amiga precisa de mim.

Eu gosto de brincar de ser blogueira e aqui eu vou compartilhar com vocês um pouco do meu trabalho como designer e cool hunter. E também vou mostrar as novidades do mundo atípico e como fazer para interagir com esse universo porque... né!

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