Licor de Cacau

Licor de Cacau - 1ª Temporada - #8 - Playlist

16:33Cacau dos Santos

Imagem: Unsplash

(1) Sobre fundo preto surgem, em letras brancas, sucessivamente, as seguintes frases:

AVISO: A história a seguir contém linguagem atípica, palavrões, termos em inglês, muitos pontos de exclamação e referências da cultura pop e, devido ao seu conteúdo, este pode causar crises de risos e nostalgia aos leitores. Todos os personagens e eventos - mesmo aqueles baseados em pessoas reais - são fictícios. Se por ventura você se identificar com algo que foi escrito ou com alguém citado, isso significa que a sua loucura se parece um pouco com a minha e aproveite esse momento de coincidência para me seguir no instagram: @thecacaudossantos

(2) As frases desaparecem em fade e surge título da série seguida da primeira cena

Nos episódios anteriores:
- E o que você pretende fazer? – pergunto a Tina
- Primeiro eu vou ligar pra sua tia.
- NÃO! ISSO NÃO! – Berro.
- EU VOU LIGAR PRA SUA TIA, SIM SENHORA! – Ela avisa

- Você vai para a minha casa, fica comigo e com a Flor de Lis até conseguimos um apartamento para você morar. Acho que já passou da hora de você ter seu próprio canto e sua independência. – responde minha Tia. – E você terá de ir nas sessões de terapia as quais eu ei de pagar. Sem discussão e sem negociação.

- Você gostou (desse apartamento)? Se vê morando aqui? Quer ficar com ele? – pergunta minha tia, interrompendo minhas lembranças dentro de uma lembrança.
- Sim, eu quero ficar aqui.
- Ótimo, vou fechar o contrato do aluguel então.

- Lembra do Leo? – pergunta Valentina
- Não.
- Leo, amigo da Marjorie, prima do Duda!
- ...Não.
- Aí caralho, o Leo de Juiz de Fora.
- Tá, lembrei. O que tem ele?
- Então, o primo do Leo se mudou para o Rio mas ele acabou perdendo a vaga na república onde ia ficar e agora precisa, com urgência, de um lugar pra morar.
- E eu com isso?
- Você não me disse que há muitos apartamentos aí no 336 pra alugar?
- É, há.
- Então, poderia mostrar um desses para o primo do Leo.

- ...Pedro... quer sair pra tomar um sorvete comigo?
- Aaah, por mim tudo bem.

- Eu também não, por isso gosto de você.
- ...
- Assim, gosto no bom sentido! No de amigo! Pessoa! Você me entendeu, não é? Diz que sim! Já estou falando coisas sem sentindo, bebi muito vinho e ele sobe rápido a minha cabeça! Melhor eu ir enquanto ainda consigo chamar um táxi! – e começo a tagarelar feito louca! Melhor ir logo embora dali.
- Não precisa ir embora agora! – Diz ele rapidamente antes que eu me levante. – Quer dizer, você pode ficar, se quiser.

- Eu não tô acreditando! Chouri! É você mesmo! Caramba cara, não te vejo a, sei lá, já faz uns 20 anos!
- Mais que isso! Da última vez que nos vimos nós tínhamos o quê? Uns 6 pra 7 anos?!

Whatsapp vibra, mensagem do Chouri
ANTÔNIO/CHOURI: Acordei e minha mãe disse que vc tinha ido embora. Cara que loco foi a noite de ontem, mas foi muito irado. Adorei tudo. Adorei te reencontrar, isso me deixou muito feliz (EMOJI SORRINDO).

Celular vibra novamente, mensagem de Pedro
PEDRO: Hey, tudo bem por aí? Como foi de Carnaval?

Olho direto pra câmera e falo sério: Confessar uma coisa pra vocês, esse momento parece MUITO com uma série do Netflix!


LICOR DE CACAU
EPISÓDIO 8 – PLAYLIST
Escrito por: Cacau dos Santos

Música da cena:


Rio de Janeiro, bairro das Laranjeiras
2 de março de 2017
16h59 pm

Pedi para Valentina me encontrar no Bistrô/Livraria Moviola, que fica do lado da minha casa. E por que escolhi esse local? Porque é hispter e o papo merecia uma vibe assim. Ela aceitou, e chegou na hora marcada.

Sentamos em uma das mesas vagas, logo na entrada do local, ela pede uma cerveja Mohave Bendita e eu uma taça de vinho tinto. E após darmos, cada uma, um gole em suas respectivas bebidas, eis que iniciamos a conversa. Explico a ela os acontecimentos das últimas 48 horas, que havia reencontrado Chouri, um amigo de infância, e que havia passado a noite na casa de sua mãe e que compartilhamos a mesma cama:
- Então você e esse tal de Chouri dormiram juntos? – pergunta ela tentando disfarçar o susto.
- Bom sim e não, dormimos na mesma cama mas, como disse, nada aconteceu. Estávamos alcoolizados demais para fazer qualquer coisa. – explico dando mais um gole no meu vinho.
- Mas... e se vocês não tivessem bebido, ia rolar?
- Não Valentina! – exclamo – De jeito maneira! Pelo amor dos meus filhinhos, não! É o Chouri, um amigão de infância, nem pensar! Dormir com ele seria como dormir com um irmão e isso é incesto!
- Então por quê que isso mexeu tanto com você?
- Não mexeu comigo! – afirmo – Só que... sei lá, né? Uma coisa é você compartilhar a cama com seu melhor amigo quando se tem 5 anos de idade, outra é você burra velha, com 33 anos, no auge do seu pico sexual, ali deitada do lado de um homem. É... estranho... não é? – pergunto.
- É? – retruca ela com outra pergunta.
- É! É estranho! Mas é um estranho que não vai afetar em nada a nossa amizade, assim espero.
- Então vocês vão retomar a amizade?
- Vamos, claro! Se depender de mim vamos continuar do ponto em que paramos. Tanto que amanhã tem show da banda dele e eu faço questão de ir.
- Banda? Ele tem banda?! – estranha ela
- Tem sim, de Heavy Metal, os caras pegam sucessos pop e regravam tudo num som pesadíssimo, é louco! Insano! E muito divertido! Quer ouvir? – pergunto já me virando para tirar o celular da bolsa.
- Não, obrigada. – ela nega na hora – Já posso imaginar como é.
- Haha – rio discretamente – Quer ir comigo amanhã?
- Nesse show dele?
- É!
- Deus, não! – exclama ela – Muito obrigada mas prefiro ficar em casa organizando as últimas coisas para o canal.
- Aaaah sim, bem lembrado, o seu canal. E aí, já começou a filmar alguma coisa? – pergunto ansiosa.
- Já sim! Ainda não tem muita coisa mas acho que dá pra editar uns 2, 3 vídeos com as gravações que fiz. Tenho até alguns aqui na memória do celular, olha... – e Valentina pega seu celular e mostra algumas das filmagens que fez na faculdade – aqui é a entrada principal, tá vendo que tem essa rampa que leva até a biblioteca, só que na entrada da biblioteca tem essa pequena escada, de 4 andares, mas não dá pra descer sozinha, alguém precisa me pegar no colo. Por sorte tem meus amigos e sua boa vontade mas com uma outra rampa não haveria a necessidade de ninguém descer comigo. É uma coisa simples que eu já levei para a diretoria mas, até agora, ninguém tomou nenhuma providência. Então essa vai ser a primeira coisa a qual eu falar no meu canal, da implementação dessa rampa.
- Boa Tina, curti. – lhe respondo com um sorriso.
- Aliás eu queria fazer umas fotos também, para postar no grupo da faculdade, só que a câmera do meu celular tá louca! Filma mas, pra tirar foto, de repente ela trava! Um saco! Vou tentar comprar outro celular mês que vem mas, enquanto isso, a gente se vira como pode. Tem como você ir comigo até a faculdade na segunda de manhã pra tirar essas fotos?
- Essa segunda agora?
- Uh hum. – ela afirma.
- Iiih Tina, não vai dar, segunda eu tenho consulta com a minha psicóloga. Desde que voltei de férias ainda não fui nela.
- Bem lembrado, como é que vão as coisas?
- Aaah vão bem, eu gosto da Dra. Luíza, gosto de conversar com ela, só não gosto do fato de que, quem paga pelas minhas consultas, é a minha tia. Mas foi o “Tratado de Tordesilhas” imposto pelo bruaca, então...
- Haha, entendo.
- Agora sabe qual é o mais bizarro? Eu, esse ano, tinha decidido tirar essa responsabilidade das costas da minha Tia e ia passar a pagar por tudo, com o reajuste do meu salário, mas aí eu fui demitida e jogo virou, de novo, não é mesmo!
- Falando em demissão, e aí, vai mesmo ficar como freelancer?
- Por enquanto sim, se der certo, ótimo, se não der, fazer o quê? Volto para o mercado de trabalho mesmo e se não conseguir nada na minha área então faço qualquer outra coisa, nem que seja vender fruta na feira. Mas fome eu não passo e nem deixo de pagar as minhas contas.
- Faz você muito bem. Mas tenta essa coisa de freelancer mesmo, potencial e criatividade pra isso você tem então mete a cara! Aproveita que o ano começou agora, por assim dizer, e corre atrás!
- Farei isso. E que dê tudo certo, por favor, senão imagina só, eu ter de voltar a morar na casa da minha Tia? Cruz credo, prefiro ser currada.
- CAMILA! – exclama Valentina assustada com a minha exemplificação.
- Quê?!

E nos entreolhamos por alguns segundos e depois caímos na gargalhada!
- HAHAHAHAHAHAHAHA!
- HAHAHAHAHAHAHAHA!

E passada a crise de gargalhada, ela me pergunta do Pedro:
- E o Pedro, como está?
- Ah, tá bem. – respondo tentando parecer despreocupada.
- E como estão as coisas entre vocês?
- Ah, normais. Indo. Não tem muito o que dizer, já estavam meio que estagnadas antes dele ir para Juiz de Foras, agora então, morreram de vez. A gente se fala com uma certa frequência, sabe? Mas nada de muito especial. Só um mantendo o outro informado. E é isso. – e assim que termino de falar eu abaixo a cabeça numa tentativa frustrada de esconder a minha decepção.
- Você gosta mesmo dele, não é? – pergunta Tina meio que numa afirmação.
- É, gosto, mas fazer o quê? Olha a nossa situação. Esse é um típico clássico de pessoa certa na hora errada.
- É... bom, quem sabe o que o futuro reserva para vocês, não é?
- Quem sabe?

É, quem sabe?

E depois da 2 garrafas de cerveja e 2 taças de vinho, encerramos nossa conversa. Coloco Valentina dentro de um táxi que a leva embora pra casa e eu volto para o meu apartamento. E assim que abro a porta eu sinto meu celular vibrar dentro da bolsa. O pego e vejo que recebi um áudio no whatsapp da minha amiga Alice.

ALICE: Oi amiga, tudo bem? Voltei agora de viagem, amo passar o Carnaval em Salvador mas eu tô é morta de cansaço! Mas e aí, como você está? Como estão as coisas? E o Pedro, deu sinal de vida? Escuta, vi que você me marcou num evento lá no face, num show que vai rolar no sábado, me dá mais detalhes a respeito? Super me interessei mas o que quero mesmo é te ver.

Respondo Alice com outro áudio:
EU: Oi mulher! Tava com saudades de você! Então, também tô louca pra te ver, o show de sábado é de um amigo meu, show de heavy metal, não é muito a sua praia que eu sei mas se você topar, vamos juntas. De quebra matamos a saudades e colocamos o papo em dia e você me conta como foi Salvador. Beijos, te amo!

OLHO PARA A CÂMERA E FALO:
- Será que ela vai topar ir?

E logo de imediato, Alice me manda sua resposta:
ALICE: Super topo!

OLHO PARA A CÂMERA E FALO:
- Ela super topa! :D



Rio de Janeiro, Tijuca
4 de março de 2017
20h05 pm

Marco com Alice no Buteko Buxixo 1 hora antes do show da banda do Chouri. Tô de boas, a esperando já sentada em uma das mesas que ficam do lado de fora quando a avisto chegar num vestido longo branco, com uma presilha em formato de flor presa na lateral direita da cabeça, com os cabelos longos, soltos e ondulados, todo num clima tropical, e já me espanto com o seu visual! “Caralho, ela vai num show de metal assim? Nesse look Réveillon?!”, penso. Mas deixo passar, é o jeito Alice dela de ser, plena e da paz. Levanto da cadeira e abro os braços para recebê-la:
- Migah! – grita ela empolgadíssima.
- Amiga! – respondo no mesmo tom de empolgação.

E nos abraçamos aquele abraço de “dancinha”, onde vamos de um lado para o outro. Um abraço gostoso que só os amigos sabem dar.

- Caramba Alice, você tá radiante! Toda bronzeada!
- Aí tostei no sol, admito! Precisava tirar aquela cor de escritório do meu corpo! – responde ela já puxando uma cadeira para sentar.
- Mas e aí, me conta como foi lá em Salvador?
- Aaah uma agitação só, né? Quer dizer, aquele lugar já é vivo por natureza mas no Carnaval é uma coisa! Muito cheio, muita muvuca, um calor! Mas tava demais, uma delícia. Na próxima vem comigo, por favor!
- Vamos ver, você sabe que Carnaval, pra mim, é no Rio. Quer pedir alguma coisa pra beber?
- Aaah um suco, queria um suco de maracujá. Cadê o garçom?

Chamamos o garçom e fazemos os devidos pedidos. Depois disso engatamos a nossa conversa.

- Diz aí, que amigo é esse que apareceu do nada?
- É o Chouri, ele foi o meu primeiro BFF, acredita? Não o via a mais de 20 anos de nos encontramos assim, do nada!
- Chouri?! – estranha ela – Que raio de nome é esse?
- Apelido de Antônio, vem de chouriço.
- Aaah tá, Antônio... e como é que ele é?
- Como assim, fisicamente? – espanto a pergunta.
- É, assim, de corpo?
- Aaah, normal. 2 olhos, 1 nariz, 1 boca... – disfarço.
- Aaaah Camila, por favor, né? Você entendeu minha pergunta. Ele é bonito?
- Bonito?! – me espanto de novo – Aaah Alice, sei lá, pra mim ele é o Chouri!
- Mas ele é loiro ou moreno?
- Moreno, mestiço, vulgo cor de papel de pão. Descoloriu os cabelos recentemente.
- Uuh, cor dos olhos?
- Castanhos.
- Corpo?
- Normal, nem gordo, nem magro e nem sarado.
- Tem namorada?
- ALICE! – espanto de novo.
- Quê? Vai quê...
- Hahaha, até onde eu saiba ele está solteiro.
- Uuuh, e ele te interessa?
- O CHOURI? Tais louca, mulher! – exclamo.
- Olha, se ele não te interessa e for bonito e solteiro... – ela faz uma pausa - ...há chances!
- Alice você ainda não viu nem as fuças do cidadão e já está dizendo que há chances!
- Camila a vida é assim, feita de oportunidades, e as oportunidades é você quem as faz.
- Aaah tá legal, então chegando lá eu te coloco na fita e o resto é com vocês dois. Mas não me responsabilizo se nada dê certo, tá bem?
- Tá bem! – e ela debocha – Agora mudando de bofe, e Pedro, hein?
- Aaah Meu Pai, Pedro é O assunto do momento! Todos querem saber – falo revirando os olhos.
- Claro, né, amiga, depois do que vocês viveram no último ano, todos estamos na expectativa!
- Pedro está ótimo, chegou em Juiz de Fora são e salvo, já está com a família, cuidando direitinho do pai dele que vai começar o tratamento semana que vem.
- É mesmo câncer o que ele tem?
- É mesmo câncer. Infelizmente. – respondo alterando o tom de voz – Por sorte foi descoberto a tempo, na fase inicial, e há grandes chances dele sair dessa. Pelo o que entendi talvez o pai dele opere e remova o tumor que é benigno.
- Menos mal, né amiga?
- É, menos mal. Mas falo por experiência própria, essa é uma doença que, quando descoberta, não atinge só o doente, atinge a todos das família. Me lembro quando soube que o câncer da minha mãe era maligno. – e meu tom de voz muda de novo, ficando cabisbaixo.

Alice percebe que estou começando a ficar triste e muda logo o foco do assunto:
- Bom amiga, tirando essa parte da doença, como vocês dois estão? E sabe a que me refiro.
- Nós não estamos, Alice – digo revirando os olhos – Nós nunca estivemos. Até hoje fomos só dois amigos que transavam de vez em quando mas sem afetar a nossa relação, e só.
- Mas você gosta dele, não é?
- Engraçado, você é a segunda pessoa que, em menos de 48 horas, que me faz essa mesma pergunta. Mas gostar ou deixar de gostar, nesse caso, não faz diferença alguma.
- Então isso significa que seu coração está aberto a novas possibilidades?
- Sempre esteve! – afirmo com toda convicção.
- E esse tal de Chouri se interessar? Hum? – pergunta ela num ar malicioso e levantando as sobrancelhas.
- Alice meu amor, entenda de uma vez por todas, isso não vai acontecer.


Calabouço Heavy & Rock Bar
21h16

A fila para entrar no Calabouço já está grande, não sabia que ia encher tanto, pra mim ia ser mais um dia comum, um sábado ordinário. Legal é que geral tá de preto, menos Alice, que não para de chamar a atenção de todos com o seu look “Sou da Paz”. E ela, claro, repara os olhares:
- Eu hein, o povo me encarando. Quê que é? Perdeu o rabo em mim? Quer levar pra casa?

E eu seguro o riso. Ela realmente não faz ideia da noite que nos espera.

10 minutos depois entramos na casa e vamos até o bar pedir alguma coisa pra beber.

- Então, vão querer o que, meninas? – pergunta o barman super educado.
- Eu vou querer um Gin Tônica – respondo – E você, Alice?
- Aí eu queria outro suco. Ô moço, tem de cupuaçu?
- HÃ?! – e o barman estranha.
- Alice PELAMOR! – exclamo – Isso aqui não é uma franquia de suco, é um Espaço animado para roqueiros, metaleiros e headbangers. O máximo que você vai encontrar pra beber, que não seja com álcool, é água!
- Na verdade a gente tem suco de laranja, vai querer princesa? – responde o barman em direção a Alice.
- Aí, viu! Tem suco sim! – debocha ela da minha cara – Eu vou querer um suco de laranja.
- AFF! – reviro os olhos.

E o espaço, além de cheio, estava mesmo animado. O DJ que estava se apresentando era mesmo bom. Nós duas ficamos encostadas no bar, bebendo nossas bebidas e curtindo, conversando um pouco mais quando meu celular vibra. O pego e vejo que recebi uma mensagem de Chouri:

ANTÔNIO/CHOURI: Já tá no Calabouço?
EU: Já sim, tô aqui no bar com uma amiga. Vai subir no palco que horas?
ANTÔNIO/CHOURI: Daqui a pouco, às 10h.
EU: BLZ, tô curiosa para te ver cantar.
ANTÔNIO/CHOURI: E eu tô curioso pra ver sua reação. Vc vai ver só, vai rolar uma surpresa! (EMOJI PISCANDO OS OLHOS)
EU: Surpresa???? Como assim surpresa???
ANTÔNIO/CHOURI: Vc vai ver, aguarde...
EU: AAAAH NÃO, FALA LOGO, CHOURI!

Mas ele só visualiza e não responde.

- FILHO DA MÃE! – Grito alto.
- Que foi, amiga? – pergunta Alice assustada.
- O Chouri, disse que vai fazer uma surpresa durante a apresentação mas não quis me contar que surpresa é essa?
- Querida se é surpresa então é claro que não vai contar, né?
- Aaah nada a ver surpresa, pra que isso?
- Pra te agradar, sei lá. – fala ela maliciosamente de novo.
- Me agradar? Menos Alice.
- O que você acha que pode ser?
- Não faço a mínima ideia.

22h08
E eis que a banda de Chouri é apresentada e o povo vai à loucura! Nossa, não sabia que eles eram tão populares assim entre essa galera metaleira. Eu e Alice ficamos pelo bar mesmo, observando tudo de longe. As luzes se apagam, Chouri e os outros 2 rapazes sobem no palco, consigo ver a silhueta deles, cada um se posiciona em seus respectivos lugares e eles começam a tocar. Só pelos primeiros arranjos, mesmo em versão metal, eu já identifico o som, é SORRY do JUSTIN BIBER! E assim que a música entra no refrão as luzes se ascendem e consigo ver, nitidamente, o rosto de Chouri.

Penso em voz alta:
- UAU! Ele tá tão diferente. Parece tão... seguro...

Com o olhos pintados de delineador preto, cabelo arrepiado no gel, look black out total, nossa, esse é mesmo o meu Chouri?

- Quem é ele, amiga? – me pergunta Alice – É o que tá cantando?
- O próprio.
- Nossa, não o imaginava assim.
- Assim como?
- Assim gostosinho.
- WHAAAAAAT?! – me assusto e olho para Alice.

- É amiga, gostosinho. Ele é gostosinho, vai? 

Olho de novo para Chouri e tenho de admitir, ele está mesmo gostoso. Vejam bem, está e não é. Talvez eu esteja tendo essa impressão porque ele está cantando e passando tanta segurança, tanto poder, o danado transpira a Rock & Roll. E SORRY, nessa versão, ficou irada!

A música acaba e ele agradece ao público que ovaciona a banda. Eu e Alice começamos a bater palmas e a gritar UHULLL seguindo a vibe da plateia.

Logo percebo que Chouri me viu, nossos olhares se cruzam rapidamente. Lhe dou um oi com a mão e ele retribu rapidamente e logo começa a cantar outra música, dessa vez é BANG da Anitta, essa eu já tinha escutado no seu canal no YouTube. E a apresentação vai correndo muito bem, até Alice, que não é de gostar desse gênero musical (ele prefere pop nacional e internacional), tá se divertindo. Já tirou o celular do bolso e tá fazendo fotos e vídeos para o instagram. Decido fazer o mesmo, tiro meu celular do bolso e começo a fazer uma LIVE pela minha conta do insta. Logo noto que 5 pessoas estão assistindo a minha transmissão ao vivo, dentre elas o Pedro, que faz o seguinte comentário:
- Tá animado isso, aí!

Olho para a tela e tento segurar um sorriso bobo que insiste em aparecer na minha face. Aaah Pedro, bateu uma saudade forte agora. Queria que estivesse aqui comigo. Quem sabe, quando voltar ao Rio, eu não o traga aqui, amei esse lugar!

De repente a música acaba e ouço Chouri falar ao microfone:
- Bom galera, a próxima música entrou a pouco tempo no nosso repertório. Ela é do tempo de papai e mamãe mas acho que todos aqui a conhecem e devem gostar. Ela tem um significado muito importante pra mim pois, segundo uma grande amiga minha, ela foi ESCRITA pra mim! Sim, uma vez, enquanto eu sofria bullyng na creche, essa minha amiga virou e falou “Chouri, você tem uma música”, e eu acreditei! Durante muitos anos eu cantei essa música crente que era minha mesmo. Loucura, cara! Nós erámos duas crianças muito sem noção!

Meu coração para na hora! Tiro os olhos da tela do celular e olho diretamente para Chouri que está achando graça da situação. Não, ele NÃO vai fazer isso! Ele NÃO vai cantar Rock the Casbah do The Clash! NÃO!

Ele continua explicando:
- Cara, e eu não via essa amiga a anos! Então, tipo, eu PRECISAVA cantar essa música hoje em sua homenagem, relembrando os bons tempos que tivemos no Miraflores!

- Eu tô bege! – exclama Alice levando a mão ao coração – Cacau, ele tá falando de você!
- Não tá não! – exclamo tentando conter o meu ar abasbaquadado.

E eis que Chouri aponta pra mim e fala:
- Camila, essa aqui é pra você!

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! FILHO DA MÃE, ELE FEZ! ELE COMEÇA A CANTAR ROCK THE CASBAH VERSÃO METAL! E o pior: a plateia adora! Até Alice adora! Ela dá um grito e começa a dançar feito uma louca! PORRA, QUE GAROTO ORDINÁRIO, ELE EXPOE A GENTE!

♪ The Shareef don't like it
Rockin' the Casbah
Rock the Casbah ♪


OK, eu tenho de admitir, essa versão ficou ótima! E vê-lo canta-la dessa maneira encheu meu coração de alegria! Pego meu celular e recomeço a transmissão ao vivo. De repente Chouri aponta pra mim e fala ao microfone:
- VEM CAMILA, VEM CANTAR ESSA MÚSICA COMIGO!
- Que?! NÃO! – exclamo.

E todos na plateia se viram na minha direção e começam a gritar “VAI! VAI! VAI! VAI! VAI! VAI!”.
- Qual foi, gente? Não! – digo morrendo de vergonha mas gostando da zoeira.
- VAI LÁ, CACAU! – Fala Alice tomando o celular da minha mãe e me empurrando em direção ao palco.

Caralho, eu não vou subir e cantar. Eu NÃO VOU subir e cantar. EU NÃO VOU SUBIR E CANTAR! Eu já estou em cima do palco pegando o microfone e cantando.

♪ By order of the prophet
We ban that boogie sound
Degenerate the faithful
With that crazy Casbah sound ♪

Passo o microfone para Chouri que continua cantando.

♪ But the Bedouin they brought out
The electric camel drum
The local guitar picker
Got his guitar picking thumb
As soon as the Shareef
Had cleared the square
They began to wail ♪

E ele se aproxima de mim, coloca o microfone entre nós 2 e começamos a cantar o refrão juntos!

♪ The Shareef don't like it
Rockin' the Casbah
Rock the Casbah
The Shareef don't like it
Rockin' the Casbah
Rock the Casbah ♪

Cara, que loucura! Eu já não era mais eu, já estava possuída pelo ritmo Ragatanga... digo, ritmo The Clash! Olho pra frente e vejo Alice toda animadinha dançando com a cabeça e segurando meu celular, com certeza ela deve ter continuado a transmissão ao vivo pra mim então com certeza, se o Pedro ainda estiver online, ele deve estar assistindo.

A música termina e todos começam a aplaudir em euforia. Curvo o meu corpo pra frente em sinal de reverencia e Chouri faz o mesmo. Me viro pra trás e mando aplausos para os outros 2 integrantes da banda e depois me viro para Chouri e começo a lhe aplaudir. Ele faz o mesmo e depois me pega pela cintura e me abraça.

- ISSO FOI DO CARALHO! É MUITO BOM TE TER DE VOLTA A MINHA VIDA! – grita ele.
- EU TAMBÉM TÔ FELIZ PORQUE TE REENCONTREI! – grito de volta.
Chouri então me desce e eu saio do palco emocionada. Muitos vem falar comigo, elogiar aquela apresentação improvisada, fico toda sem graça, mas fico contente com aquela tietagem express. Vou direção a Alice que já me recebe com vários aplausos:
- AEEEEEEEEEEEEEH, RAZÔ! Que isso? Não sabia que tinha uma amiga que dava pra cantora!
- Aí para com isso! – respondo meio encabulada.
- Toma aqui seu celular, acho que o Pedro falou alguma coisa.

Pego o celular da mão de Alice e, dito feito, Pedro estava assistindo toda a transmissão e deixou o seguinte comentário:
- Não me diga que agora você vai virar uma Rock Star? E quem é esse cara? Vocês se conhecem?

Porra, o Pedro quer saber do Chouri... mas e daí? O que tem de errado nisso? Ele é meu amigo, aliás os dois são então não há porque eu ficar preocupada em ter de explicar a Beutrano da Citrano e vice e versa. Mas deixo pra explicar isso depois. Agora eu só quero saber de uma coisa: bebida!
- Garçom, outro Gin Tônica por favor.


23h26
O show do DEMODES KILLERS chega ao fim e eles vão para o backstage. Chouri me manda uma mensagem logo em seguida dizendo: “Vem pra cá, eles deixam vcs entrarem”. E nós vamos porque... né?

Ao chegar no backstage (primeira vez que entro num lugar assim), vejo os meninos da banda na maior euforia. Chouri me chama com a mão e vou em sua direção.

- Galera, essa aqui é a minha amiga, Camila. Camila, essa é a galera. Felipe e Davi.
- Oi, prazer. – os cumprimentos com um aceno de mão e recebo um “e aí?” de volta – Essa aqui é a minha amiga, Alice.
- Oi gente?! – Cumprimenta naquela euforia de sempre e ela recebe o mesmo “e aí?” que eu recebi em troca, seguida de uns olhares do tipo “É sério que ela tá toda de branco? Filha isso aqui é show de Rock e não um luau na praia do Recreio”.

JEOVÁ NA CAUSA, esse look ainda vai render!

- Vocês arrasaram, sabiam?! – elogia ela fazendo o sinal de Rock & Roll com as mãos – São demais! Vou comprar o cd de vocês e tudo! Tá vendendo aqui nesse bar?
- AHA HAHAHAHA! – Rio tentando disfarçar a situação.
- A gente não tem cd físico não, gata. Mas você pode nos acompanhar nas redes sociais. – explica o tal de Felipe.
- Não temos cd mas bem que podíamos ter, eu já falei sobre isso... – joga o tal de Davi na cara.
- E eu já falei que ninguém compra cd hoje em dia, é um investimento imbecil... – rebate o tal de Felipe olhando sério para o tal de Davi.
- Não acho investimento imbecil, se fosse assim um monte de artistas famosos não estariam lançando cds ainda... – rebate o tal de Davi também olhando sério para o tal de Felipe.
- É você é “um monte de artistas” por acaso? – rebate... aaah vocês entenderam a questão aqui.
- Galera já deu! DEU! Vamos deixar para discutir essa questão de cd ou não cd pra depois por favor. – pede Chouri apaziguando a situação – A gente acabou de fazer um show muito foda e, ao invés de brigar, acho que devemos comemorar. – e Chouri se vira para mim e para Alice – Meninas, a casa nos dá direito a open bar, topam tomar alguma coisa?
- Claro! Super topamos! – respondo por nós dois.

E lá fomos nós de volta para o bar onde passamos a maior parte da noite enchendo a cara e falando um monte de besteiras. Alice está visivelmente afim de Chouri, ela ajeita o cabelo a toda hora, o joga para o lado, empina um pouco as tetas, exibe, sempre que pode, seu sorriso branco e cheio de dentes, ri de tudo o que Chouri fala, dá aquela cruzada de pernas à la Sharon Stone.


Só quero ver se vai conseguir alguma coisa! Os observo discretamente enquanto bato um papo com o tal do Felipe, ou melhor, enquanto o ouço falar sobre suas suposições sobre o line up do próximo Rock in Rio:
- Porque eu acho que eles vão encerrar o festival com o Guns. Para pra pensar, seria épico! Sem contar que eles querem se redimir do line up merda de 2 anos atrás. Por favor, foi uma bosta aquela edição! Agora tacada de mestre trazer Aerosmith, Red hot e agora Guns para se apresentarem esse ano. E ainda acho que vai rolar Blink. Você curte Blink?
- ... Hã? – pergunto meio distraída.
- Blink, Blink 182, você curte?
- Aaah sim, curto muito!
- Acha que eles vêm?
- Vêm pra onde?
- Pro Rock in Rio.
- Aaah sim, vem, com certeza... – e desvio o olhar de novo para Chouri e Alice. Vai rolar, tô sentindo.

O clima estava mesmo agradável mas, de repente, já eram 3 madruga (COMO ASSIM?) e o Calabouço começa a fechar as portas. Temos de ir.

- Pô, vacilo fecharem a casa logo agora – reclama o tal de Felipe - Bora fazer um estica lá em casa! O que acham? Meninas, vocês topam?

Olho meio em dúvida para Alice que também não sabe ao certo o que responder? Chouri se vira e dá sua opinião:
- Eu acho que vai ser bem bacana. O que acham?
- ...Bom... – faço uma pausa olhando, de novo, para Alice, mas dou a minha resposta - ...se o Felipe não morar muito longe...
- Eu moro ali em Laranjeiras, pertinho da sua casa. – explica ele.
- Laranjeiras? – me assusto.
- É Camila, ele é meu colega de apê. – explica Chouri.
- Aaaah tá, então é com ele que você mora!
- Isso aí. Bora lá. – insiste Felipe.
- Bom, por mim tudo bem. Você topa, Alice? Qualquer coisa você pode ir para a minha casa depois.

E olhando Chouri de cima a baixo, Alice manda a sua resposta:
- É, eu topo!

Ele ri meio sem-graça.

- Então bora lá, chama 1 táxi aí, acho que cabe nós 5. – insiste o tal de Felipe.

E assim saímos do Calabouço e vamos em direção a rua, onde Chouri faz sinal para um táxi que para. Ele negocia a viagem e o motorista faz que sim com a cabeça. Davi é o primeiro a entrar e fica no banco do carona, na parte da frente, depois entra eu que senta na janela do lado esquerdo, atrás do motorista. Em seguida entra o tal de Felipe seguido de Chouri. E Alice entra por último, sentando no colo do Chouri!

- Desculpa tá, mas já não tem mais espaço para eu sentar então vou no seu colo. – explica ela.
- Sinta-se a vontade! – diz ele com a mão em sua cintura.
- OOOOOOOOH! HOJE TEM! – comemora Felipe.

E todos nós caímos na gargalhada!

- Alice só você, garota! – digo com a mão na testa.

O tal de Felipe passa o braço sobre o meu ombro. Lhe lanço um olhar de “Nem pensar” enquanto ele me lança um olhar de “Qual foi, gata? Dá uma chance aí”, só me faltava essa! Tiro então o celular do bolso e aproveito para checar se há alguma mensagem do Pedro e deixo a tela bem visível aos olhos de Felipe para que ele perceba que estou falando com outro homem e, quem sabe assim não desencana?

Vejo que a última coisa que ele falou foi durante minha “apresentação”, eu é que estou lhe devendo uma resposta. Abro o histórico de conversar do instagram e digito:
EU: Não virei e nem pretendo virar uma Rock Star, apenas quis dar uma canja no show do meu amigo. Aaah sim, o cara em questão é o Chouri, o que te falei que não o via a mais de 20 anos. Então, estava no show dele e ele me pediu pra cantar a nossa música...

“NOSSA MÚSICA”? Não, apaga isso, tá muito “coisa de casal”

EU: ... e ele me pediu pra cantar uma música que costumávamos cantar quando crianças, foi isso. Nada de mais. Mas me diverti muito! Queria que estivesse aqui para ver esse momento. Bom você viu, pelo LIVE, mas queria que tivesse visto ao vivo e a cores mesmo, em carne e osso. Quando voltar ao Rio faço questão de te levar nesse Espaço.

Pronto, bem melhor. Envio a mensagem e desligo o celular e o guardo no bolso de novo. Com certeza ele só vai me responder amanhã. A essa hora deve estar no décimo terceiro sono.

Chegamos na casa dos meninos lá pelas 3h45 da madruga. Felipe já chega ligando a TV e conectando o Spotify no Chromecast e abrindo uma playlist chamada ROCK CLASSICS (https://open.spotify.com/user/spotify/playlist/2Qi8yAzfj1KavAhWz1gaem). Deus, nessa patota só vive mesmo o rock 24 horas por dia! E ao som de ‘Paint it, Black’ do Rolling Stone, ele me chama pra dançar, e eu aceito!



O pobre Davi, meio descolado, senta no sofá e fica mexendo no celular enquanto Chouri e Alice ficam num canto isolado da sala conversando. Ela está mesmo afim de deixar suas impressões digitais no corpo desse sujeito! E eu ainda acredito que vai conseguir fazer isso. Felipe também tem esperanças de ficar comigo, mas preciso logo cortar as esperanças desse sujeito.
- Você fuma? – pergunta ele na lata.
- Não, não fumo. – respondo direto.
- Não cigarro, erva. – afirma ele mais direto ainda.
- Ah sim, bem esporadicamente. – afirmo mais direta que ele.
- Tá afim de dar um teco agora? Tenho uma mini-horta lá no meu quarto, então pode-se dizer que minha erva é orgânica.

Dou uma gargalhada alta!

- Sério, experimenta aí – e ele tira um baseado de dentro do bolso, o ascende, dá um teco e depois o passa pra mim.

Não resisto e pego o baseado oferecido e dou um teco também enquanto continuo dançando ao som de Rolling Stones. Davi, que estava nem aí para nada, vê a cena, se levanta do sofá e pede um teco também. E assim curtimos aquele momento nós 3.
- De fato sua erva é gourmet. – respondo ao tal de Felipe, que me olha assustado e depois cai na gargalhada. Aliás todos nós começamos a rir. Esse bagulho é do bom mesmo, hein!

Olho para o canto onde Alice e Chouri deveriam estar mas não estão mais. Aposto que já foram para o quarto darem um pegas! Eu sabia, SABIA que ela ia conseguir ficar com ele e comemoro mentalmente.

‘Paint it, Black’ termina e em seguida toca ‘Light My Fire’ do The Doors e começo a rir de novo!



- Gente, essa música, tem tudo a ver com o momento! HAHAHAHAHA!
- HAHAHAHAHAHA!! – e os dois riem juntos e começamos a dançar aquela dancinha psicodélica com mãoszinhas em slow motion. Muito doido, eu sei.

Giro para um lado e giro para o outro, mãozinhas para o ar fazendo círculos e eu sinto o meu corpo todo relaxado. Me vem a cabeça uma série de coisas aleatórias, momentos da minha infância, eu brincando no escorrega do Miraflores, a minha mãe me dando mingau, eu já mocinha chorando na porta do Extra porque não consegui comprar o cd Millennium dos Backstreet Boys, o cheiro de tutti-frutti daquele xampu Seda Teen que ressecou todo o meu cabelo, o momento em que eu perdi o meu BV... beijo... uuuh, beijo... o Chouri tá me beijando.... O CHOURI TÁ ME BEIJANDO?!!!

Abro os olhos e vejo com clareza o que está acontecendo, Chouri, do nada, apareceu na sala, me viu dançando, se aproximou de mim, segurou de leve meu rosto e começou a me beijar. Mas foi só voltar do rápido transe que eu lhe dou um empurrão.

- QUE ISSO, GAROTO? FICOU MALUCO?! – grito.

E sem lhe dar a chance de resposta eu saio bufando de raiva da sua casa, deixando até a Alice pra trás. Coitada! Só fui me lembrar dela quando já estava no final da rua Almirante Salgado.

- Aaaah porra, a Alice... – me viro para voltar a subir aquela ladeira toda de novo quando avisto Chouri correndo para tentar me alcançar. – AAAAAAAAH NÃO! – grito de novo – NEM VEM! VAI PRA PUTA QUE PARIU!

E, de novo, saio bufando de raiva, mas ele me alcança e, ofegante, começa a falar:
- Camila, por favor, espera! Me desculpa!
- Por que você fez isso, Chouri? POR QUE?! - pergunto aos berros - Porra cara, olha o que você fez, ESTRAGOU TUDO!
- Me ouve, caralho! – ele pede, me segurando pelos ombros e parando na minha frente – Me desculpa! Eu nunca pensei que você fosse ficar puta assim mas é que...
- É que o quê? É QUE O QUÊ?!
- ...eu gosto de você!
- QUÊ?! – por favor, que isso o quê ele está falando seja efeito da viagem da maconha gourmet do tal de Felipe.
- É, eu gosto de você, sempre gostei, desde criancinha! Desde que... – e ele para, olha para trás e percebe que estamos a poucos metros do Colégio Miraflores - ... desde que a gente estudava nessa porra dessa escola! – e ele fala apontando para a fachada – Eu sei que isso é loucura, que você nunca sentiu o mesmo mas essa é a verdade, eu sempre fui afimzão de você e quando a gente se reencontrou anos depois eu vi nisso a oportunidade perfeita de tentar um lance. Para e pensa, vai que é pra gente ficar juntos? Vai que eu e você somos... eu e você?
- ... Chouri... – paro e penso bem no que vou dizer, mas a verdade é que eu não faço a mínima ideia do que devo dizer! - ...eu preciso ir embora.

E mais uma vez eu saio de cena e o deixo sozinho, no meio da rua, todo cabisbaixo. Saio correndo feito uma louca até chegar em casa, suando em bicas, sem fôlego, corri e nem olhei para trás. Corri feito um raio, o mais depressa que consegui correr naquele momento... o foda é que eu correndo é muito engraçado!



Corri tanto que, ao entrar no meu condomínio, o Seu Carlos, o porteiro-vovô-tarado-que-me-ama e que estava de plantão aquela madrugada, me olha e pergunta:
- Que isso menina, tá treinando para a maratona, é?

Não o respondo, só sigo correndo até chegar no meu apartamento e só paro quando entro e tranco a porta. A bato com tanta força que acordo a Cake com o susto! Olho para ela, a pego no colo e lhe dou um forte abraço!

- Aí Cake! Cake deu tudo errado! Não era para ele se apaixonar por mim, era para ele me amar como amiga! E agora, Cake? E agora?

E começo a chorar com a minha cachorrinha em meus braços, que não está entendendo patavinas nenhuma?! Tadinha. Mas por quê esse choro? Por quê esse drama, FOCO CACAU!... Foco nada e me entrego, por completo, as lágrimas!

Que situação!


Rio de Janeiro, bairro das Laranjeiras
5 de março de 2017
10h52 am

Acordo com aquela ressaca moral! Que vergonha, SEM OR, QUE VERGONHA! Como pode uma coisas dessas, meu amigo de infância afimzão (como o próprio disse) de mim! Me sento na cama e pego o celular que estava debaixo do travesseiro, claro que há umas trocentas mensagens do Chouri, a maioria usando a palavra “desculpa”. Há também uma da Alice. Droga, a Alice, tinha me esquecido completamente dela! Abro o whatsapp e vejo o que ela escreveu:

5h55
ALICE: Amiga, o que foi que aconteceu? O Antônio disse que você saiu fugida do apê dele, pq?!!!! O q aqueles meninos fizeram com vc? Por acaso eles tentaram abusar de vc?!!! ME RESPONDE, POR FAVOR!!!!

6h41
ALICE: Amiga, passando pra dizer que cheguei em casa agora. Antônio me trouxe de moto. Ele me disse que tentou te beijar e vc ñ curtiu e por isso foi embora com raiva. É isso msm? Me liga assim que ver esse zap, por favor!!!!!

OLHO PARA A CÂMERA E FALO:
- Coitada da Alice, tá mais perdida que bala em boca de banguelo. Deixa eu ligar logo pra ela e explicar o que houve?

Ligo direto do whatsapp mesmo e logo no primeiro toque ela já me atende:
- Cacau?! – pergunta aflita
- Oi Alice. – digo meio sem graça.
- Criatura o que foi que houve ontem a noite? Me diz! Me explica!
- ... o Chouri me beijo.
- Aaaah eu sabia! Sabia que ele ia fazer isso!
- ... Como assim “sabia”? – exclamo – Vocês estavam flertando ontem a noite! COMO ASSIM “SABIA”?!
- Aaah Cacau, nós não estávamos flertando, eu que estava dando em cima dele mas ele não estava correspondendo em nada. Não reparou, não?
- Claro que reparei! Tanto que vocês, uma hora, sumiram e foram para o quarto dele! – joguei na cara.
- Não migah, eu fui para o quarto dele porque vocês começaram a fumar maconha e você sabe muito bem que essa não é a minha praia. Então pedi para ir para um lugar mais reservado e ele me levou para o quarto dele mas NÃO ficou comigo lá, me deixou no quarto descansando e depois voltou pra sala. Em momento algum nós ficamos juntos, de onde você tirou essa ideia?!
- ... – fico muda por alguns segundos, estou me sentindo uma imbecil! - ... mas Alice, você achou ele gostosinho...
- Mas isso não significa que ele tenha me achado gostosona! – exclama ela – Sabe o que o Antônio me disse quando chegamos na casa dele?
- O quê?
- Que gosta de você e que você estava uma gata aquela noite e que se o tal de Felipe se atrevesse a te beijar, ele ia ficar muito puto.
- ... – fico muda por alguns segundos de novo, eu realmente me sinto uma imbecil! - ...ele não disse isso...
- Disse! Disse sim! E mais, quando me deixou no quarto ele falou que ia abrir o jogo pra você e pelo jeito abriu, né? A ponto de você ficar puta e sair de lá cuspindo marimbondos e me deixar lá sozinha, com 3 homens loucos! Dois deles com maconha nas ideias! AAAH ISSO FOI MUITO RUDE, VIU! – e ela está mesmo chateada comigo e com razão.
- Puxa Alice... me desculpa, me desculpa mesmo. Não fiz por mal, eu apenas sai de lá e quando me toquei do que estava fazendo já era tarde, tentei voltar mas o Chouri veio atrás e aí eu me emputeci de novo e saí correndo pra casa. Foi isso, e foi uma PÉSSIMA ideia a gente ter ido até a casa dele. Antes eu tivesse dito não e hoje tudo estaria em ordem e na mais perfeita paz!
- Será, Cacau? Será que estaria mesmo na ordem e em paz?
- ... – me calo novamente.
- Cacau você prestou atenção no que te falei? Ele disse que gosta de você, GOSTA! Então mesmo se nada tivesse acontecido ontem a noite isso não mudaria o fato de que ele sente algo por você. Pelo contrário, só ia adiar o que já tava na cara que vai acontecer, vocês vão ficar juntos.
- QUÊ?! NÃO! – Afirmo assustada – Isso não vai rolar, mulher! PARA! De onde você tirou essa ideia absurda?!
- Do seu olhar, enquanto ele se apresentava. Você ficou encantada... – fala ela de novo com aquele ar de malícia.
- Encantada mas não apaixonada! O Chouri estava ali, no palco, cantando, passando aquele ar de Rock Star e isso é sedutor. Mexeu um pouco comigo mas também mexeu com 90% das mulheres que estavam ali assistindo ao seu show. Pepecas sempre piscam para o vocalista de uma banda agora fazer meu coração bater mais forte, não! De jeito nenhum!
- Tem certeza, amiga? Olha, analisa melhor essa situação aí. Será que você não gosta mesmo do Antônio e por isso está na defensiva e tentando se manter fiel ao que sente pelo Pedro porque ainda tem esperança de que algo aconteça entre vocês? Conversa com esse coraçãozinho aí porque ele e você precisam se entender.
- ... – não tenho nem moral para responder a Aline, só me mantenho muda que ganho mais do que tentar argumentar.
- Pensa nisso aí, gata garota. Beijos e boa sorte e quando passar essa ressaca moral me avisa pra gente sair pra conversar melhor. Te amo.

E ela encerra a ligação. Porra, que soco bem dado na boca do estomago.

Abro, de novo, o whatsapp e vejo as mensagens do Chouri:
6H43
ANTÔNIO/CHOURI: Eu não tenho palavras pra dizer o quanto eu me arrependo do q fiz. Me desculpa, de verdade. Vc é muito importante pra mim e ñ quero perder a sua amizade. Ñ depois de tudo. Ñ depois q a gente se reencontrou. Me desculpa Camila, eu não vou tentar mais nada, prometo.

9h55
ANTÔNIO/CHOURI: Já está acordada? Está melhor? Mais calma? Pensou no que te falei? Como disse ñ vou tentar mais nada, só quero que vc continue sendo a minha amiga. Me desculpa, vai.

Não o respondo de imediato. Continuo sentada na cama, pensando sobre tudo o que aconteceu e no que Alice me disse. Estou tão na defensiva por causa do que sinto pelo Pedro? Estou tão na defensiva por causa do que sinto pelo Pedro! Fato. Pedro, preciso contar a ele o que houve... Preciso abrir o jogo pra ele.

16h07
Enrolo, enrolo e enrolo mas, finalmente, pego o celular e ligo para Pedro. Respiro bem fundo a cada toque da chamada, e quando ele atende, sinto o meu coração bater mais forte!
- Alô? – ele pergunta do outro lado da linha.
- Oi! Sou eu! – respondo numa animação exagerada.
- Oi Camila. – ele fala com carinho.
- Oi Pê, tudo bem?
- Tudo, e com você?
- Tudo bem. Como está o seu pai?
- Ele está bem, estamos otimistas com relação ao tratamento.
- Ótimo, sabe que estou torcendo muito por vocês, não sabe?
- Sei sim, obrigado.
- Pê... eu liguei porque... eu queria te dizer uma coisa...
- ...Que coisa? – ele pergunta curioso.
- Uma coisa que aconteceu...
- ...que foi?
- ... Ah.... – respiro fundo mais uma vez - ...foi ontem a noite, depois do show do Chouri. A gente foi pra cada dele e... bom... a gente acabou se beijando.
- ... – Pedro se mantém calado.
- Mas não aconteceu nada demais depois isso, eu juro. Eu fui embora e vim direto pra casa e agora eu estou aqui, te contando exatamente o que aconteceu porque... porque eu queria que você soubesse disso por mim, porque eu me importo com você e com os seus sentimentos. Com os nossos sentimentos. Eu te respeito muito Pê, e depois que você foi embora eu não fiquei com mais ninguém. Eu não quis ficar com mais ninguém. Eu sinto a sua falta e eu queria que você soubesse disso.
- ... – e ele continua calado.
- Então foi isso, foi... foi uma coisa tão estúpida o que aconteceu e não teve significado nenhum pra mim. E eu continuo aqui pensando em você.
- ... – nada, nem uma silaba saí da boca dele.
- ..Pedro? – pergunto querendo saber se ele ainda estava do outro lado da linha.
- Sim? – ele responde seco.
- Você... não tem nada pra me dizer?
- Ah, legal.
- ... Ah, legal... – repito estranhamente.
- Legal, então... é só isso?
- É, é só isso. – respondo no mesmo tom seco.
- Ah, legal...
- ...
- ...

E fica aquele silêncio constrangedor de alguns segundos. Acho que não há mais nada a ser feito a não ser encerrar a ligação.

- Bom, então tchau, Pê. Boa semana pra você.
- Tchau Camila.

E desligamos ao mesmo tempo.
OLHO PARA A CÂMERA E FALO:
- “Ah, legal”! Sério, “Ah, legal”?! Eu acabo de dizer que beijei outro cara e ele só tem isso como resposta? “Ah, legal?”, não pode ser verdade, ele só pode estar de sacanagem com a minha cara!

Pior que fico ruminando aquilo o resto do dia!

Tô lavando a louça e, de repente:
- “Ah, legal”?!

Paro para fazer a unha e, de repente:
- “Ah, legal”?!

Paro para jantar e aí:
- “Ah, legal”?!

- “Ah, legal”?! “Ah, legal”?! “Ah, legal”?!!!!!!

Vou escovar os dentes e:
- “Ah, legal”?!

Preparando a cama onde a Cake vai dormir:
- “Ah, legal”?!

Já deitada na cama:
- “Ah, legal”?!

Aquele último pensamento antes de dormir:
- “Ah, legal”?!

Acordo meia hora depois e pego o celular para ver a hora e percebo que ainda são 23h17 e penso:
- “Ah, legal”?!

Não, cara, não tá nada legal! Por que ele não disse “Olha só piranha, isso o que você fez foi uma puta falta de sacanagem! Mal virei as costas e você já está aí, se enroscando com outro homem! Tá pensando que sou trouxa?! Se quer ser minha mulher vai ter de me respeitar!”, era isso o que eu queria ouvir e não um mero e simples e ralo - “Ah, legal”!

Meu celular vibra e, de novo, é Chouri, me mandando mensagem:
ANTÔNIO/CHOURI: Vc não vai mesmo me perdoar, não é.  Vacilei feio, ñ é?

Chouri, passei o dia inteiro o evitando. Hora de lhe dar uma satisfação:
EU: Esquece o que aconteceu, Chouri. Só esquece, eu já esqueci e continuo sendo a sua amiga.

E ele me responde quase que de imediato:
ANTÔNIO/CHOURI: :D :D :D :D :D :D
EU: ^^

Pronto, estamos de volta de novo.


Rio de Janeiro, Vila Isabel
6 de março de 2017
9h42 am

Consigo chegar com quase 20 minutos de antecedência na consulta com a Dra. Luíza. Sou a rainha dos atrasos mas para as minhas sessões de terapia eu faço questão de ser pontual! Toco a campainha do seu consultório que fica em sua casa, numa rua da Teodoro da Silva, em Vila Isabel, e ela me atende com toda a calma e paciência do mundo e pede que aguarde na sala de estar só mais alguns minutos enquanto encerra a sessão com outro paciente. Concordo, me sentando no sofá e pegando uma revista para ler, ou tentar ler porque a cabeça já está a mil. Olho ao meu redor e sempre reparo naquela decoração clean e minimalista. Com aquela musiquinha de meditação tocando ao fundo, diz ela que ajuda relaxar, no meu caso dá sono mas um sono do bom desprovido de qualquer cansaço físico ou tédio.

10h em ponto e ela libera o paciente anterior e me chama para dentro do quarto/consultório. Me deito no divã vintage verde musgo, como de costume, e fico encarando o teto breco. Ela se sente na cadeira amarela minha frente, como de costume, cruza as pernas e faz a boa e velha primeira pergunta da sessão:

- Então Camila, o quê conta de novo?
- Dra. Luíza... acho que estou prestes a ter relações sexuais com o meu melhor amigo de infância.

É, essa primeira sessão de terapia do ano promete.

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